20110726

3o. dia - 30.08.09 - Lima

Tínhamos mais um dia para conhecer Lima. Catarina não estava se sentindo bem e precisou procurar atendimento médico. Foi nessa hora que eu entendi a importância de um seguro-saúde, que cobriu todas as despesas. Um problema como aquele poderia atrapalhar toda a sua viagem se não recebesse os cuidados necessários. À noite, tivemos a boa notícia de que ela já notava uma melhora.
Próximo ao hostel, estava a Plaza de los Namorados, inspirada nas obras de Gaudi. Ao fundo, uma incrível paisagem que nos apresentava ao Oceano Pacífico. A praça era contornada por muros de ladrilhos, arrumados como mosaico, formando figuras e frases de amor; no centro, uma enorme escultura de dois namorados, que se beijavam sem se preocupar com as fotos que tirávamos deles.




Descemos ruas e escadarias para tocar as águas que banham o lado de lá do continente – afinal, não poderíamos deixar de fazê-lo. Águas geladas, talvez não tão diferentes das nossas, mas certamente compondo um outro cenário. A praia não tinha areia nem biquínis, mas muitas pedras e roupas de borracha. Esse era o único jeito para entrar no mar, que o vento deixava ainda mais frio. Surfistas por todos os lados, mas era com muito esforço e boa vontade que se podia enxergar uma onda ou outra. As pedras eram muito bonitas e ficavam menores à medida que se aproximavam do mar, e o seu vai-e-vem, filtrado por elas, produzia um delicioso som de chocalho. Estávamos na praia “La cascavel”, segundo o Eduardo. Mais uma das piadas que eu caí. Ficamos um bom e descansado tempo deitados sobre as pedras, ouvindo esse som. Indo embora, notamos nas calçadas muitos borrões e umas manchas brancas enormes. Que será que era aquilo? A resposta estava bem em cima de nossas cabeças: umas aves, nada boas da barriga, que descansavam nos fios de luz. Acabaram sujando nossa roupa, mas entendemos, como dizem, como sinal de boa sorte. Já era hora da maré virar.




  Pertinho dali, havia uma pista de parapente. Ela ficava à beira de um paredão que terminava no mar. Por causa disso, era possível sair e pousar no mesmo lugar – o que tornava aquele ponto especialmente privilegiado na prática do esporte. Fomos ver quanto era, pensamos, achamos melhor ir a outros passeios antes, e o tempo levando as horas embora. Não dava mais para adiar: tinha que decidir. O pessoal foi almoçar e eu agilizei as pernas para chegar antes do sol se pôr. Valeu cada passo apressado e cada centavo investido – foi uma sensação indescritível. E quem estava lá de novo? Jesus! Dessa vez me disse não só que gostava dos brasileiros, como já tinha estado no Brasil e pretendia voltar para o carnaval. Ainda tentei convencê-lo a nos visitar mais vezes e em outras épocas, mas partida em breve para os Estados Unidos. Deve ser ainda por causa da crise, me consolei.

  Estar no céu com Jesus foi realmente divino. Nós subimos muito – ele disse que eu era leve, por isso ganhávamos altura. Agora, com atestado celestial, vai ser muito mais difícil fazer dieta. Mas, de fato, a sensação é que o corpo tinha virado uma pluma, “que o vento vai levando pelo ar”. Já não tinha mais o peso dos quilos, das mochilas, das preocupações. Ali, só cabia o sopro do céu. Conheci Lima por um ângulo que poucos experimentaram – plainamos sobre os prédios e os executivos, sobre as crianças brincando no parque, sobre o infinito do Oceano Pacífico. Descemos um pouco fazendo a contra-mão das estradas e tomamos altura perto dos paredões. Foi a primeira de muitas boas experiências da viagem.

  À tarde, visitamos um centro cerimonial da civilização Lima, datado de 300 d.C. O curioso é que esse centro arqueológico (Pachacamac, nome do deus supremo daquela cultura) estava no meio das ruas, casas e comércio da região. As civilizações que vieram depois, como os Incas, continuaram a fazer uso do templo. As escavações foram revelando muitos patamares, mas foi preciso parar as pesquisas por causa dos riscos de desabamento. Havia uma parte aberta que parecia uma praça ou um lugar para a reunião de pessoas. A acústica era impressionante – já havia naquela época um entendimento sobre isso.

  Conhecemos também o centro da cidade. Chegamos na Plaza de las Armas para visitar a catedral na hora em que o vigia fechava uma das entradas. Tentamos conversar, disse que éramos brasileiros e estávamos de visita apenas aquele dia, mas já haviam se passado dois minutos do horário de encerramento – não teve jeito. Pontualidade a qual não estamos acostumados. Fomos andar por outras praças, que, para nossa surpresa, mais uma vez, eram sempre muito habitadas. Assistimos a troca de guarda do Palácio do Governo, junto com toda a gente que se reunia nas calçadas, mas não achamos lá essa coisa toda. Ficamos na expectativa do outro grupo – o que estava chegando, ou o que estava saindo, ou uma entrega de bastão, mas era apenas uma bandinha muito pequena pra tanto espaço da frente do palácio. Fizemos o programa mais ‘eu-sou-turista-mesmo-e-daí’ de todos – um passeio naqueles ônibus que têm o segundo andar aberto. E fomos, é claro, no segundo andar. E o moço que estava atravessando a rua riu de mim, mas, que importa, era dia de turistar.


  Paramos numa outra praça bem diferente das anteriores – era o Parque de las Águas. Lá tinham todos os tipos de chafarizes: com cascatas imensas, túneis, sincronizados com músicas, iluminados de cores. Um em especial reunia público e participantes: as pessoas entravam no jogo de águas e os jatos brotavam do chão sem aviso. Impossível não se molhar! Pensamos em como seria bom um chafariz desse no verão do Rio de Janeiro. Era tão grande o parque que sentamos num dos bancos pra descansar. Do meu lado, estava Di-e-go (assim me disse seu nome), um menino lindo de cinco anos. Pensei que era um bom momento de arriscar o espanhol, pois talvez ele estivesse aprendendo tanto quanto eu ou seria mais compreensivo com minhas faltas. Mas em dois minutos de conversa, falou: “tu no hablas mi idioma”, e assim, sem nenhuma comiseração, desmascarou minha ousadia. Expliquei que era de outro país e ele perguntou se no Brasil tinha selva. Me segredou que já tinha visto um leão, “era muy grande y muy selvage”. Sugeri que então já era um menino grande, mas não concordou – seria grande só quando fizesse dez anos. Sua mãe lhe chamou, mas logo depois voltou para se despedir – ganhamos um beijinho e o Eduardo, um aperto de mão. Dieguito nos deixou cheios de sorrisos!



Aproveitamos a última noite em Lima numa outra rua de bares. Enquanto nosso grupo jantava, fui no orelhão tentar agendar um táxi para nos levar ao aeroporto na manhã seguinte. Um outro taxista se compadeceu com minha tentativa, sem sucesso, de colocar a moeda no orelhão e me ofereceu seu celular para fazer a chamada. Perguntei se ele não estaria disponível para o serviço. “No, no, yo trabajo sólo acá.” Ainda insisti, dizendo que estávamos num bairro próximo. Ele tentou me explicar o porque não poderia usando as melhores palavras que tinha, mas vendo a sua tentativa sem sucesso, disse: “llevo hombres para ver chicas sin ropa”. É, ele tinha razão, acho que o aeroporto estava mesmo fora de mão.

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