20110726

9o. dia - 05.09.09 - Copacabana/Ilha do Sol

Acordei cedo pra um banho. Chuveiro aberto, sabonete a postos, e a farta ducha que até então havia foi se transformando num filete de água. Cheguei na recepção de cara feia: “un momento, un momento”. Dois momentos depois e nada de água. De novo à recepção, de novo a cara feia, de volta ao banheiro. E quando achei que tudo tinha se resolvido, para minha quase surpresa, mais uma vez a água sumiu. Eu, cheia de xampu, recorri a chuveiros alheios, que me fizeram feliz por 2 minutos, quando também se transformaram em filetes de água fervente. Desci atrasada, descabelada, queimada e, entre os pedidos de desculpas do hosteleiros, expurguei minha insatisfação repetindo “no me gustó, no me gustó” como um disco riscado – eu era praticamente uma música da Ana Carolina. A caminho da rodoviária, cuspi dois ou três marimbondos enquanto o Filipe dava risada, dizendo que eu parecia a bruxa do 71 com aquele penteado embaraçado exótico e xingando em  outra língua. Ainda soubemos pela Cati que, no meio da noite, um homem abriu a porta e entrou no quarto deles. Despertado no susto, o Rafa ainda teve sagacidade de falar “que és eso???” (notem: em espanhol), e logo expulsou o distraído. Que hostel mais safado era aquele! Pelo menos, nos rendeu dois jargões que seriam repetidos e incluídos na lista das ‘célebres frases do mochilão’.
A confusão acabava por me distrair da maior preocupação do momento: a nécessaire. E pela graça do Santo Protetor dos Mochileiros Esquecidos, sim, lá na estava ela, me esperando num dos guichés da rodoviária. E dentro, todo o dinheiro que eu tinha escondido. Deixei, mesmo sem precisar (isso mesmo – o serviço não era cobrado), 10 soles com a moça  que me entregou o pacote enviado de Cusco, tamanha foi a minha alegria. Depois mandei um email para Yésica,  do Pirwa Backpacker, muito agradecida pela importante gentileza. Quando todos nós nos desfizemos de toda nota peruana que em breve nada valeria, descobrimos uma taxa para pagar. O Rafa precisou sacar uma grana que serviu para pagar a taxa de todos e gastar o resto em guloseimas.
E foi do lado direito do ônibus, seguindo a recomendação do Rafa (que seguiu a recomendação dos famosos relatos), que partimos para a Bolívia. A passagem Puno X Copacabana custou 15 soles. Encerrávamos ali nosso percurso no primeiro dos três países que visitaríamos com uma bela sensação de missão cumprida.


O dia de sol sem nuvens deixava a viagem ainda mais bonita, apesar do bronzeado forçado. Mas mesmo com o braço já cansado de proteger o rosto do sol, a luz, o céu azul e os quilômetros de uma vegetação árida contornando o Titicaca faziam o cenário perfeito para nos sentirmos oficialmente num mochilão. Eu me espantava ainda mais com o tamanho do Lago, gigantesco. Filipe disse que dali a pouco íamos chegar na Baía de Guanabara – não duvidei. Mas o que encontramos mesmo foi a Bolívia, que nos recepcionou com mais uma taxa cobrada já no interior do ônibus. Descemos todos na “Migracíon”, para preencher papéis e carimbar o passaporte. Eu e os papeizinhos, que guerra santa! Nem pensar em perdê-los. Finalmente, chegamos à Copacabana banhada por águas doces. Andamos pela rua principal para comer, ver o artesanato, trocar dinheiro e comprar as passagens para a Ilha do Sol (10 bolivianos). E de novo nossas mochilas ficaram no escritório da ‘agência de viagens’, agora com um pouco mais de confiança – era mesmo desse jeito que as coisas funcionavam.


Voltamos ao Titicaca pelo lado boliviano. Subi ao segundo andar do barco para admirar a incrível visão dos Andes. As montanhas geladas estavam mais perto do que nunca, talvez não tão perto quanto minhas palavras sugerem, mas o suficiente para me deixar extasiada com a sua magnitude. E mais uma vez agradeci a inteligentíssima idéia de deixar a bagagem pesada em terra e carregar só algumas peças de roupa. Subimos, subimos, subimos e subimos mais um pouco até chegar no hotel que, surpresa, os relatos tinham indicado. Valeu termos driblado alguns meninos que tentavam nos convencer a ficar nos mais próximos, mas, mesmo sem cedermos às negociações, um deles nos acompanhou até o fim. O hotel Inti Wayra, por 40 bolivianos o quarto privado, foi decididamente a melhor escolha. Feito de madeira e vidro e localizado no alto do lado norte da ilha, nos apresentava a imensidão do Titicaca encontrando os Andes ao fundo – paisagem que podíamos ver dos quartos. Eu e Filipe, como se não fosse possível, subimos mais um pouco para assistir o pôr-do-sol do outro lado, a 4.010m de altitude. E mais incrível ainda foi o nascer da lua, lua cheia, que a natureza contratou para deixar os turistas ali ainda mais encantados. A lua, as águas com um rastro prateado, um casaco bem quente e o silêncio.


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