20110726

12o. dia - 08.09.09 - La Paz/Downhill

Mais um dia de acordar cedo e, mais uma vez, por um bom motivo. Íamos para o Downhill no `Camino del la Muerte`. Se o nome não era um dos mais atrativos, idéia de descer de bike 3.600m (em 65 km de distância) dispensava perguntas sobre o assunto. Melhor nem saber. Com o café da manhã incluído no pacote, que custou 58 dólares, esperamos a van no hostel e partimos para encontrar o restante do grupo. E adivinha de onde ele era? Brasil, Minas Gerais. Os japoneses que se cuidem, nós é que iremos dominar o mundo... Começamos a vestir os apetrechos para o Downhill - luvas, roupa corta-vento, capacete, óculos - mas Rafa e Edu acabaram ficando desfalcados. Os tamanhos que pedimos na hora de fechar o contrato não haviam sido respeitados, mas como eu, Carol e Cati éramos três formigas que cabiam em qualquer número, foram os meninos que pagaram o pato. Por causa desse desagrado (e de saber que os mineiros foram mais malandros que os cariocas e haviam conseguido um desconto), os muchachos não quiseram pagar pato nenhum e ainda pediram o dinheiro de volta. Discusões, atrasos e 14 dólares devolvidos depois, partimos para o passeio.

A descida começava em La Cumbre, a 4.700m, e finalizava em Coroico, a 1.200m. Fazia um bom tempo que eu não andava de bicicleta e, por dois segundos, tive medo de ter esquecido como fazia. Mas, como os sábios jargões populares nos dizem, taí uma coisa que a gente nunca esquece. Uma primeira voltinha meio capenga para as adaptações e começamos a pedalada. A paisagem era incrivelmente bonita. Montanhas de cor laranja-acizentada ao fundo, e nós ganhando velocidade no asfalto liso. O vento passando com rapidez nos dava uma grande sensação de liberdade. Dividíamos a rodovia com caminhões e carros de passeio que, graças ao Deus Protetor dos Ciclistas na Pista, andavam com uma certa prudência.



As montanhas foram mudando para uma vegetação verde e o caminho, pedras e chão de terra batida. Os meninos se aventuravam com rapidez; eu tentava encontrar um ritmo; Cati e Rafa ficavam próximos e Carol usava os freios com mais frequência. Mas ser a última não lhe incomodava. Só de estar ali havia sido um enorme passo para desmistificar traumas do passado, de um tombo de bicicleta de deixar medo em qualquer um. Caroleta, com ajuda do fiel guia que nos acompanhou, venceu o medo em grande estilo, numa das estradas mais perigosas do mundo.



De tempos em tempos, parávamos para descansar e esperar para o grupo se reunir. Esses pontos geralmente guardavam histórias tristíssimas, de acidentes e muitas mortes. Nosso guia revelou uma dessas histórias passadas em sua própria família. Era mesmo assustador imaginar que aquele caminho tão estreito, de curvas acentuadas e beirado por abismos, já havia sido a estrada principal de circulação. Quando algum veículo se aproximava, nossos guias se comunicavam por rádio e nos deixavam mais atentos. Os mineiros também foram ótimas companhias para descontrair o clima tenso que por vezes o passeio ganhava. Dei muitas risadas! O grupo de amigos de longa data que se reunia para mais uma viagem me fazia sentir saudades da minha `galerinha` da Uff e seu extenso currículo de mochilinhas. Pensei nos amigos e familiares que gostaria que estivesse ali. Ah, se eu pudesse, carregava todo mundo comigo!



Paramos no meio do caminho para um lanche: sanduíche à moda self service, a ser preparado com tomate, alface, presunto, queijo, com direito à edição personalizada. Não sobrou uma fatia de pão pra contar história.

Foram algumas horas de descida. Os dedos quase não tinham mais forças para apertar o freio, mas acredito que ninguém estivesse torcendo para que o passeio acabasse. No entanto, confesso que depois de avistar o barzinho que anunciava o fim das pedaladas, me deu até uma alegria - o cansaço era grande. Uma cerveja para comemorar e um almoço com direito à piscina e sauna pra fechar com chave de ouro. Acabamos ficando mais que o previsto e chegamos tarde à La Paz. A cidade, vista de longe, era um bonito vale de luzes. E a noite estava apenas começando. Mas não podemos deixar de mencionar a trilha sonora da viagem, que foi, digamos, muito peculiar. Teve até "quero beber do mel de sua boca...", lembram dessa?


Filipe, que nos esperava no hostel com 5 fios de cabelo branco a mais, contou que já estava pensando em como dar a notícia de que todo mundo tinha ficado numa das curvas da estrada. Realmente demoramos muito a chegar. E depois de contarmos o nosso dia e ouvirmos o dele, chegamos à conclusão de que nós é que devíamos ter nos preocupado com Filipe. O equipamento completo da empresa que ele escolheu foi uma bicicleta e um “vai com Deus”. Morremos de rir com as histórias do Liso e ouvimos sobre um personagem lendário que conheceríamos mais tarde: o Argentino.

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