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4o. dia - 31.08.09 - Cusco

Cusco surgiu entre um vale de montanhas, bem acidentadas e diferentes das nossas. O piloto do avião avisou que a aterrissagem seria em breve, mas nenhuma pista de pouso à vista. Nem pista de pouso, nem qualquer terra firme que lembrasse uma cidade. De repente, algo surgiu lá embaixo, o avião fez uma curva e as rodas tocaram o solo – mais rápido que o fim dessa frase. Do alto, vimos uma paisagem gelada que acreditamos ser os Andes. Eu, que estava na desvantagem do corredor, atropelei Carol e Eduardo pra chegar mais pertinho na janela – sempre quis ver pessoalmente aquelas montanhas de topo branco que apareciam nos filmes. Viajamos para Cusco com Daniel, um carioca que conhecemos em Lima. Dividimos um táxi e seguimos para nosso hostel, Pirwa Backpacker Colonial, deixando-o antes em outro. Este foi nosso primeiro passeio pela cidade – gostamos muito do bairro onde ficou nosso novo amigo. Eram ruas altas feitas de paralelepípedo, com bonitas construções.



Filipe já estava em Cusco desde o primeiro dia e, se dependesse dele, ficaria até o último. Já cheio de histórias sobre a cidade, as pessoas e o mal-estar de altitude, parecia que estava há três semanas viajando. Achei que as mocinhas da recepção sabiam seu nome por causa dos belos olhos friburguenses, mas depois vi que não era exclusividade – elas decoravam o nome de todo mundo. Só a Carolina e a Catarina que viraram Catelina, mas foi uma falta perdoável. Silvia, nome que eu só decorei no último dia, foi nossa mais simpática hosteleira. Foi ela que nos indicou os passeios históricos para se fazer na cidade. Fechamos um pacote turístico que nos dava o direito de visitar os principais pontos históricos de Cusco e arredores, que nos custou 70,00 soles. Estudantes pagavam meia entrada – valeu ter feito a Carteira Internacional.



Deixamos as mochilas no quarto e fomos pegar o ônibus que nos levaria aos passeios do dia. Antes, demos uma pequena volta na cidade para comprar comes e bebes e trocar dinheiro. Eu estava sempre com minha máquina a postos registrando a cotidianidade de Cusco. Turistas abrindo mapas, pessoas lendo jornal na banca, mulheres carregando o mundo envolto num pano, estudantes de gravata e calça social ou saia xadrez e fita no cabelo. Tudo ficava bonito nas fotos.




A primeira parada foi no Museu Municipal de Arte Contemporânea. Nosso guia, Orlando, foi lembrado o resto da viagem por seu curioso tom nas explicações. Ele fazia perguntas que ele mesmo respondia, e assim nos poupava trabalho. “Por qué e para qué?” eram as palavras mágicas que nos apresentaria à história da cultura Inca. Apesar de ser um museu de arte contemporânea e dos enormes quadros pendurados nas paredes, nos concentramos no que ali restara da civilização Inca. Grande parte dos guias se empenha em manter viva essa história, e fica bem claro um grande ressentimento dos espanhóis, que impuseram a sua cultura através da violência e destruição. No fim do passeio, ele perguntou de onde era cada um de nós – havia um menino da Espanha. Ficamos com vergonha diplomática alheia depois de ouvir todo o tour. Aquele lugar era um importante templo Inca, o Qoricancha, sobre o qual os colonizadores construíram o Convento de Santo Domingo para afirmar sua dominação. As paredes eram tão fortes que decidiram aproveitá-las. A forma como os Incas erguiam suas construções é quase inacreditável. As peças de pedra, que chegavam a pesar toneladas, eram lapidadas para formar um perfeito encaixe e, assim, deixar a parede estável e à prova de terremotos. Eles aproveitavam as rachaduras naturais para fazer o corte, colocando ali um pedaço de madeira molhada, que dilatava e aumentava a rachadura. Depois disso, poliam a rocha até deixá-la com a forma esperada. Mas isso em pedras gigantescas, sobrepostas a grandes alturas. A arquitetura Inca é muito impressionante, de deixar qualquer um de queixo caído.



A próxima visita era a Catedral, bem imponente e que parecia ser também muito bonita. Mas não estava incluída no boleto e soubemos que no dia seguinte pela manhã poderíamos visitá-la de graça – isso soava muito melhor. Aproveitamos os minutos para apreciar a Plaza das Armas, que nos oferecia uma bela vista de Cusco, e esticar as pernas pelas ruas do centro. Todas eram de pedra e tinham em seu entorno belas casas e lojas muito coloridas pelos tecidos à venda. Havia uma senhora sentada na calçada com uma garotinha vestida com as roupas tradicionais. Tirei uma foto, ela viu, e foi andando atrás de nós rua acima, resmungando alguma coisa que eu e Filipe custamos a entender. Ela queria “una propina”, um sole pela foto tirada. Depois a encontramos distraída, chupando o picolé que a minha foto rendeu. Filipe disse: “ah, então era pra isso que você queria tanto uma moeda!”, ela sorriu o sorriso tímido de quem havia sido descoberta. As crianças lá são sempre lindas e pedem para serem fotografadas. Claro que também pedem uma moeda que nem sempre é possível dar, senão, para mim, a viagem terminaria na primeira semana. O povo é muito pobre (algo muito mais evidente na Bolívia, mas também se percebe no Peru) e vive do turismo – qualquer sole que possa lhe render. Numa das lojas do centro, encontrei um garotinho que surpreendentemente sorriu pra foto, acenou, ficou perto de nós e trocou umas palavras – tudo isso sem propina no meio. Mais uma criança encantadora!
  

Seguimos para um museu arqueológico de nome Saqsayhuamán, que os americanos dizem “Sexy Woman”, segundo nosso guia, e assim realmente é mais fácil de decorar. Era um espaço enorme, com um extenso campo coberto por uma espécie de palha e as monumentais construções de pedra. Aquela mini-cidade era um templo dedicado ao deus Sol e demorou mais de 70 anos para ser erguido – as pedras não eram naturalmente de lá, haviam sido levadas. Pedras, como eu disse, que pesam toneladas. Como eles fizeram isso naquela época, duvido que alguém responda. Nem mesmo o Orlando. Até hoje, no dia 24 de junho, eles comemoram o Festival do Sol, oferecendo ao deus uma llama preta, mais rara, em sacrifício. Nosso guia contou, com certa indignação, que os órgãos de proteção aos animais não permitem mais esse tipo de oferenda, mas que elas são feitas dentro de uma crença religiosa. Difícil impasse.


Conhecemos ainda outros dois sítios arqueológicos: Q´enqo e Tambomachay. O primeiro é um centro de cerimônias onde eram feitos sacrifícios para Pachamama, a mãe terra. Orlando contou que também se faziam sacrifícios humanos – a família que entregasse um de seus filhos à mãe terra ganhava status social. Achei isso assustador! Eu e a criança que estava do meu lado, para a qual Filipe jurou que se não ficasse quieta e parasse de pular pra um lado e pra outro, iria virar presente de Pachamama. Lá era um templo dedicado ao Puma, animal de grande importância para os Incas, que representava força e poder. Na frente do templo, tinha esculpido em pedra a cabeça de um puma, danificada pelos espanhóis. O puma faz parte de uma trilogia considerada sagrada pelo povo andino, que representa as forças guardiãs dos três mundos. Ele é responsável pelo mundo em que vivemos. Além dele, há o condor, guardião do mundo superior, que está ligado ao aprendizado e elevação espiritual, e a serpente, guardiã do mundo dos mortos e representante da sabedoria e do amor. Por causa disso, nas construções Incas, o número três é muito presente – três janelas, três divisões, três espaços.


O segundo sítio arqueológico era um templo dedicado às águas, também conhecido como “Banhos dos Incas”. Era formado por uma espécie de fonte, com várias aberturas e cascatas. Diz a lenda que quem beber daquela água terá sua juventude de volta ou preservada. Eduardo e Rafael arriscaram experimentar; nós, só molhamos as mãos. À noite eles ficaram meio desarranjados da barriga – não sei essa água deixa mais jovem, mas com certeza deixa mais magro. De presente, ganhamos do deus Sol e das águas das nuvens um belo arco-íris.

Em cada parada que fazíamos, havia sempre muitas mulheres vendendo roupas e artesanatos. Fomos orientados pelo nosso guia a não comprar nada nesses lugares, pois se vendia gato por lebre, ou melhor, lã sintética por alpaca baby. Ao final do passeio, visitamos uma fábrica onde tivemos uma aula sobre como diferenciar a qualidade do produto que iríamos consumir, e nos ofereceram blusas do primeiro corte da alpaca, por um valor tão precioso quanto. Ao menos a parada rendeu ótimas fotos de Cusco, que começava a se iluminar no cair da noite.


E a noite... A noite em Cusco ficou longe de ser comparada a qualquer outra durante a viagem. Na verdade, a apenas uma outra, mas isso é papo pra depois. Saímos para comer pizza – cardápio, aliás, que seria intensamente repetido e que seria extremamente prejudicial à minha silhueta. Por um desses acasos mochilísticos, encontramos nosso amigo Daniel, do Rio, de Lima, do táxi, sentado no restaurante que entramos. Pronto, conta paga, partimos para night, com mais um integrante no time dos solteiros. Edu não estava passando bem e foi pro hostel com Carol. Rafa e Cati se animaram a sair com a gente. Nunca imaginaríamos o que estava prestes a acontecer: chegamos próximo às boates e um mar de gente nos ilhou, cada um chamando e puxando pra um lado. Se fosse no Rio, eu já estava sem bolsa, sapato e indo fazer boletim de ocorrência. Mas como era em Cusco, saí com três vale-drinks na mão. Mesmo sem perder nada e ainda ganhando, confesso que fiquei assustada. Arrumamos uma brecha, driblamos dois ou três, e pra alegria de uns e tristeza de outros, conseguimos escapar entrando na primeira boate à vista. Ah, e ainda descobrimos uma das delícias dos vizinhos de fronteira: o free pass! Era possível sair e entrar quando quisesse, em todas as boates, de graça. Que maravilha! Cati nos ensinou la Cumbia, um dos ritmos latinos que não conhecíamos – até então, porque dois minutos depois éramos os reis de la Cumbia. Depois de dois drinks junto com o mal de altitude, podíamos dar aulas de Cumbia! Foi uma noite muito divertida. Como eu diria, enquanto o Filipe daria risadas, dançamos muito!


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