20110726

11o. dia - 07.09.09 - La Paz/Chacaltaya

A altitude produziu estranhos efeitos sobre tudo. Parecia que não eram apenas nós a sofrermos com esse mal: ao abrir meu desodorante, a bolinha saltou para longe, foi praticamente uma explosão! Eu já me sentia aclimatada, mas um leve cansaço sempre aparecia ao subir os dois lances de escada até o quarto. Chegar aos 5.540m do topo da montanha Chacaltaya seria então um verdadeiro desafio, que iríamos encarar hoje.




Dos 25 passageiros do ônibus do passeio (que custou 50 bolivianos), 22 eram brasileiros. Os ouvidos se sentiram em casa com o sotaque arranhado do puro carioquês das meninas do banco de trás. E também foi mais fácil compartilhar o desespero de cada curva do caminho. A estrada parecia ter sido feita sob medida para o ônibus, e conforme subíamos, um abismo do lado direito crescia em profundidade. A janela do meu lado me expunha a uma visão desesperadora: não encontrava a estrada, apenas um grande vão. Senti um medo como poucas vezes senti em minha vida. Na hora que a roda derrapou na neve derretida, foi por muito pouco que não pedi para descer. Eu subiria à pé mesmo, sem problemas - tinha amor à vida. Filipe quis me tranquilizar dizendo que o motorista devia fazer aquele caminho duas vezes a cada dia, devia ter muita experiência. E foi entre as minhas expressões de angústia e palavras de incentivo que finalmente chegamos ao ponto final. Dali pra frente, era mesmo no calcanhar. Fique tão feliz em sair do ônibus que encarei o resto da subida com disposição. E valeu cada passo.



Talvez eu tenha considerado aquela uma das paisagens mais bonitas durante a viagem por ter sido tão diferente de tudo que já conhecia: montanhas cobertas de neve com lagos de cores muito vivas em seus vales. Nosso guia contou que ali já havia sido a maior estação de esquí da América Latina. Agora, pouco restara da neve. Efeitos do aquecimento global. Tentamos registrar tudo em dezenas de fotos, mas a imagem mais marcante ficará mesmo por conta da memória. Eu e Carol escolhemos uma frase que ouvimos de uma pessoa muito importante para soprar aos ventos frios e fortes de lá: “o que se leva dessa vida é a vida que se leva”. E foi assim que nos despedimos, falando-a bem alto para o voz ocupar um tanto daquela imensidão.


Entre as conversas sem medo de errar as palavras, conhecemos uma menina chamada Rita, brasileira, que estava trabalhando numa ONG no Peru e aproveitara para visitar a Bolívia. Achei muito engraçado quando ela disse como se sentiu bem ao dizer “isso é muito maneiro” e alguém entender a grandiosidade dessa frase.

À tarde fomos procurar uma empresa da qual o Rafa já tinha referências para ver as condições dos equipamentos e fechar o contrato do Downhill. Filipe pesquisou outras agências que ofereciam um valor mais acessível e eu fiquei em dúvida sobre qual escolher. Mas diante das histórias que já tinha ouvido sobre a estrada da descida, optei pela mais cara, mas mais segura também. Aproveitamos para andar e conhecer os arredores do hostel. Nas calçadas, pessoas vendendo todo tipo de coisas: biscoitos, doces, cachecóis, pilhas, cadernos. Grande parte das mulheres adultas ou mais idosas vestiam as roupas características de lá: saias longas, chales, sandalinhas de couro e uma espécie de cartola no alto da cabeça. Como bem observou Carol, não havia carrinhos de bebê . Eles eram carregados na costas, envoltos num pano. A trânsito era um completo caos: carros vindos de todos lados, ônibus parando em qualquer lugar para pegar passageiros (inclusive na curva). E para organizá-lo, pessoas vestidas de zebras (?). Só podia dar zebra mesmo naquela confusão.



Mas depois fiquei pensando se não eram iguais às ruas das nossas capitais. Também como elas, o abismo social entre os bairros era assustador. Depois de atravessar um túnel (que podia muito bem ser o Rebolças), as casas pobres se tranformavam em prédios luxuosos. Os diferentes lados de La Paz. Na noite passada havíamos conhecido essa outra parte da cidade, quando fomos a um barzinho muito aconchegante (alguém lembra o nome?), mas que ainda estava vazio (foi quando o garçom nos indicou a ´noite brasileira` no Hard Rock). Mas hoje precisaríamos ir para cama mais cedo.

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