A viagem para Uyuni foi bem cansativa. Mas o cansaço também foi um ótimo aliado para conseguirmos dormir. A maior parte do percurso foi sobre um chão de terra e cheio pedras. Passar quase oito horas (das 12 que a viagem dura) saculejando dentro do ônibus foi bastante incômodo, e nada melhor que o sono pra encurtar as horas. Mas o pior foi acordar com um enjôo chato, desses não recomendáveis para se ter no meio do deserto. Não sei se foi o que jantamos no ônibus ou os chips comi em La Paz, mas meu estômago estava revirado.
A agência onde iríamos fechar o pacote de três dias no deserto (que custou 70 dólares) ainda não estava aberta. Aproveitamos para tomar o café e conhecer a cidadezinha, que também estava acordando. Crianças indo para escola, comerciantes começando a abrir as portas. Era estranho pensar que aquelas pessoas viviam em condições naturais tão inóspitas. Mas ainda ali desfrutavam de alguns recursos - outros povoados, que conheceríamos mais tarde, nos surpreenderiam mais.
Acertamos o passeio e, enquanto esperávamos num banco da pracinha, ouvimos o Filipe dizer: “ih, aí o cara!”. Era o Argentino de Córdoba, do qual havíamos ouvido tantas histórias. Ele reuniu uns três meses de férias em alguns anos de trabalho e resolveu fazer uma grande viagem. O destino era outro, mas quando o piloto do avião anunciou a parada em Lima, resolver ficar por ali mesmo. Se encantou pelo lugar, continuou de cidade em cidade e agora estava ali. Teoricamente o dinheiro já tinha acabado, mas pediu à mãe para depositar mais alguns dólares pra voltar pra casa, que acabaram sendo usados em mais um dia passeio. Para chegar em Uyuni, fez baldeação e economizaou metade do que gastamos. Essa gente é muito solta no mundo... Na próxima encarnação, venho nesse formato aí, pra viagem!
A primeira parada do Jipe azul, nosso meio de transporte, foi o cemitério dos trens. Havia muito lixo, embalagens e sacolas plásticas presas nos pequenos arbustos da paisagem árida, provavelmente trazidas pelo vento. Enormes vagões, que traziam a coloração laranja das ferrugens, compunham um incrível cenário. Nosso guia não deu muitas explicações sobre aquelas carcaças esquecidas (menos pela ação do tempo), mas em uma pesquisa para a escrita desse diário descobri que faziam parte da exploração de minério no local, que entrou em colapso na década de 40 e hoje servia como ponto turístico. Como disse, compondo um incrível cenário.
Às altas velocidades pelo caminho de areia clara e sem estradas para limitá-lo, chegamos numa pequena comunidade que vendia artesanato aos turistas, onde iríamos almoçar e fazer a parada para o banheiro. Era o próprio guia nosso cozinheiro. Enquanto ele preparava a carne, o arroz e as batatas, fomos conhecer o vilarejo. Comprei um dos itens de maior importância durante toda a viagem: uma espécie de boné de lã - que, ao mesmo tempo que aquecia, protegia do sol. Conversamos com o comerciante sobre como era morar naquele lugar para nós tão improvável. Nos contou que tinham muita dificuldade para conseguir água, que ele já havia inclusive tentado viver em outras cidades, mas, sem conseguir trabalho, acabou voltanto. A vantagem é que ali era mais sossegado, ele gostava.
O banheiro, pelo custo de 1 sole, era mais uma novidade sujeita a comentários: um fosso com o lugar para os dois pesinhos e a exigência de sustentar um equilíbrio. Bom desafio!
Seguimos para o famoso Deserto de Sal, ou Salar de Uyuni, uma impressionante planície branca - coberta, de fato, por sal - a perdermos de vista no fim do horizonte. Aquelas fotos clássicas, de um segurando o outro pela ponta dos dedos, são inevitáveis! No verão, a neve que derrete dos Andes alcança essa parte e, quando a água seca, forma figuras hexagonais que se conectam, como numa imensa colméia. Tivemos uma dimensão ainda maior da amplitude desse lugar ao subirmos numa pequena ilha que abrigava imensos cactos e, curiosamente, rochas que mais lembravam corais marinhos. Aí podemos até fazer uma piada de quem duvida de que um dia o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão. Ou já virou e desvirou, e a gente é que nem estava lá pra ver.
O passeio acabou num pequeno hotel, no meio do deserto (e se deserto não tem meio, deve ter sido ao menos perto de lá). Tudo lá era feito de sal - desde as paredes às mesas, camas e cadeiras. Tecidos espalhados por toda a parte davam cor e enfeitavam o hotel. Aproveitei que o dia ainda não tinha fechado as cortinas e corri pra tomar banho. O frio, muito frio, só aumentava. À noite,ganhamos uma garrafa de vinho, mas eu tive que ficar no chá de boldo e cream cracker para cuidar do mal-estar indesejado. Jogo de cartas para socializar e uma boa noite de sono para partir logo cedo no dia seguinte.
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