20110726

5o. dia - 01.09.09 - Ollantaytambo/Águas Calientes

As poucas horas de sono e balanço do ônibus subindo as curvas de Cusco eram a combinação perfeita para ensaiar um cochilo matinal. Mas quando fechei os olhos e dei o último suspiro antes de me entregar aos braços de Morfeu, uma voz quase familiar driblou o fone de ouvido, as conversas, o sono com balanço de ônibus e imperou absoluta até o cair da tarde. Como era muito pouco provável que Júlia já tivesse cruzado meus caminhos em outro momento, não sosseguei até desvendar a familiaridade daquela voz. Foi uma frase, ou melhor, uma palavra que revelaria o mistério: Adelánte! – estava lá, na capa dos meus livros do CCAA. Agora ela podia estar trabalhando como guia turística, mas antes, talvez nas baixas temporadas, certamente já tinha feito uns bicos como narradora das Prácticas de Compreensión Auditiva das lições de espanhol. Fui testemunha de que a voz do nível avançado que aluno nenhum jamais conseguiu entender uma sentença também tinha carne e osso. Era ela – Júlia. Pegou o microfone e, sem nenhuma pausa para respirar, falou uma frase que durou cinco minutos. Eu e Filipe nos olhamos e, sem dizer uma palavra, soltamos uma gargalhada. Não era preciso – Júlia falava por todos nós. Ficou acordado que, nas paradas, quem demorasse mais que o permitido cantaria uma música. Achei a proposta divertida, mas duvidei que o microfone circulasse por outras mãos. Infelizmente, ninguém fez o teste.

Um carro alcançou o ônibus e outros passageiros entraram. Parece que a empresa havia esquecido de buscar aquela família e por pouco não perderam o passeio. Um velhinho muito simpático sentou ao nosso lado. Falante, coberto de protetor solar e de olhos muito azuis, passaria facilmente como um americano de nome Antony Alfred Geller, se não fosse o inconfundível e bom português com sotaque de interior do sul do Brasil. Nosso povo e seus mil traços. Paramos na estrada para tirar fotos e apreciar a paisagem. Ao longo do caminho, vimos muitas casinhas feitas de um barro escuro comum por lá (e que deixa as moradias impermeáveis), crianças brincando nos quintais, montanhas e muito verde. Dali podia se avistar o início do Rio Amazonas. O senhor era professor de geografia. Disse ao Filipe que, por mais que conhecesse a história nos livros, ver a nascente de um dos rios mais importantes do nosso país era de uma emoção indescritível. Achei isso muito bonito.



A próxima parada foi numa cidadezinha costurada por uma enorme feira. Artesanatos, quadros, tecidos, mantas, gorros – tudo se conseguia mais barato, com um pouquinho de paciência e negociação. As cores, sempre muito vivas e diversas. Comprei alguns cachecóis para levar de presente. Paguei e, quando estava indo embora, ouvi a senhora dizer: “Voy a cambiar y ya me vuelvo”. Ela percebeu que não entendi e explicou que eu tinha dado o valor em dólar, não em peso, como eu devia estar pensando. Me desculpei pela confusão e agradeci repetidas vezes pela honestidade. “No podria hacer esto”, ela me disse. Abracei-a e deixei um beijo em sua testa. Antes de voltar ao ônibus, as famosas empanaditas – uma de carne e outra de ‘plátamo’.



As ruínas de Písac, que ficam no entorno, foram outra surpreendente descoberta das construções Incas. Sua grandiosidade é impressionante. E como as outras, em vales muito altos, que foram cortados por grandes degraus para serem usados na agricultura. Vimos a certa distância uma parede de barro cheia de buracos. Júlia explicou que era o cemitério Inca, que foi sendo saqueado ao longo dos anos. As pessoas eram enterradas com presentes para a Mãe terra, inclusive metais preciosos, que interessavam muito aos que estavam vivos. Visitamos as casas de pedra construídas com grande estabilidade e outras tecnologias. Ela explicava sobre a cultura Inca com muito orgulho de estar ajudando a manter viva essa história. Disse que algumas famílias sustentam a tradição do ensino da língua Quéchua às novas gerações. Alguém perguntou se ela sabia falar nessa língua – deu um sorriso, deixando o dente de ouro à mostra: sabia sim.



Seguimos para outro vilarejo: Ollantaytambo (demorei muito pra decorar esse nome). Mais alguns imensos degraus – dessa vez, sem grama, apenas pedras. Lá de baixo, uma interessante imagem, onde se percebia as milhões de unidades cinzas que compunham o lugar, destacando as cores das roupas dos visitantes. Lá de cima, um arco-íris como nunca havíamos visto antes: inteiro, como os de desenho. Vai ver que era no fim dele que as pessoas achavam o ouro para colocar nos dentes. A cada seis degraus, parávamos para ouvir as explicações. Além de falar sem parar, Júlia subia na frente de todos, gritando: “Adelánte (!)”. Bendito seja o pulmão dos Andes. Nós subíamos com esforço, uma senhora quase desistiu, mas precisávamos ser fortes, ansiando pela próxima parada, pela próxima explicação. “Alguna duda?”. E ninguém tinha dúvida nenhuma. Adelante. Comentávamos sobre essa disposição Júlia, já esperando que no final descobriríamos o patrocínio da Red Bull, quando uma moça passou, ouviu e precisou compartilhar: “meu Deus, a mulher não pára, parece que tá possuída!”. Mais gargalhadas.


Pegamos nossas coisas e descemos do ônibus pela última vez. Era hora de seguir outro destino. De Ollantaytambo, pegaríamos o trem para Macchu Pichu. Passamos o tempo num restaurante que fazia vista para as ruínas, uma ótima despedida da cidade. Em cima de todas as casas, haviam duas estátuas de bichos. Eram bois e representavam a cultura cristã. Parece que a religião protestante afirmava mais uma vez a dominação que Júlia falava com tanto pesar. O homem que nos explicou sobre as estátuas dizia com um certo desdém sobre a religião Inca, seus deuses, sua relação com a natureza. E isso aos pés de uma prova monumental do incrível conhecimento desse povo.


A fila para pegar o trem já começava a se formar. Carol estava conversando comigo quando fez a seguinte pergunta: “Lu, o que era um tal de Poka Inca que eles tanto falavam?”. Nos meus vastos conhecimentos que adquirira até então, respondi que devia ser alguma região ou povo que viva por ali. Conversa vai, conversa vem, Filipe me solta a seguinte frase, destruindo minha autoridade em cultura pré-hispânica: “nossa, não agüentava mais ouvir eles falando Época Inca, na Época Inca, quando a Época Inca...”. Ahhh, era isso... Ah tá...



Chegamos em Águas Calientes e fomos procurar alguém que devia estar nos esperando para levar ao albergue. Acontecia um enterro na cidade, como uma espécie de procissão, onde o corpo também era carregado. Nos apressamos. Melhor dar passagens aos mortos.
Ficamos no albergue de mesmo nome que o de Cusco: Pirwa. Era preciso aproveitar as horas de sono, porque logo estaríamos de pé.

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