20110726

6o. dia - 02.09.09 - Machu Picchu

Uma batida na porta. Muito sono. Duas batidas. Era o Eduardo avisando que três horas já tinham se passado e já eram três da manhã. Ele e o Rafa partiriam mais cedo para fazer a trilha de Águas Calientes até Machu Picchu, mas o despertar era para todos. Precisaríamos ser os primeiros na fila do ônibus para também sermos os primeiros a chegar. Havia uma restrição no número de pessoas que poderiam subir a montanha Wayna Picchu, que oferece umas das visões mais privilegiadas do santuário Inca. Por isso, para garantir a senha, era preciso dispensar a terceira batida na porta.
O caminho de subida era tortuoso, com uma paisagem verde que se fazia visível à medida que o dia ia amanhecendo. As muitas nuvens nos davam a impressão de estarmos chegando perto do céu, e talvez por isso os Incas tenham escolhido aquele lugar. Era uma emoção incrível pensar que estava tão próxima das tantas histórias que já tinha ouvido sobre Machu Picchu, e que quando estivéssemos na outra pista da estrada, já teria minha própria versão pra contar. Chegamos com o dia nublado, mas boas surpresas estavam à nossa espera. Carimbei em tinta azul, na primeira página do meu passaporte, “Parque Arqueológico Nacional de Machu Picchu, 02 SET 2009” – com uma introdução dessa, o resto do livro ganhou uma responsabilidade muito maior!


Na fila, encontrávamos turistas de todo canto do mundo. Uma espanhola nos disse que era a segunda ou terceira vez que voltava ali, agora levando a amiga. Minha vontade era de um dia também levar todos os meus amigos ali, ou talvez levar um de cada vez – voltar já fazia parte dos planos de chegar. Nosso guia marcou um horário de saída para todo o grupo; enquanto isso, podíamos explorar o espaço a nosso gosto. Essa é uma parte muito importante da viagem: o tempo de conhecer com calma, fazendo seu próprio caminho, escolhendo sua direção. O passeio com guia traz informações que jamais conheceríamos sozinhos, mas com alguém direcionando todos os passos os acontecimentos perdem uma certa frouxidão que é imprescindível. Chegar bem cedo também foi uma ótima estratégia. Poucas pessoas, silêncio, tranqüilidade; muito em breve, grupos e mais grupos estariam ali.

 

Entramos no Parque por um de seus mil degraus-labirinto e avistamos a mais bela e clássica imagem de Machu Picchu. Eu, que quase não gosto de fotografar, devo ter tirado umas dez fotos dessa mesma paisagem, mas nenhuma máquina conseguiria captar a grandiosidade de tudo aquilo. As fotos não apreendiam a profundidade dos vales, a extensão das construções, o tamanho do terreno, muito menos o sopro do vento e dos fantasmas da história, que vigiavam e observavam os visitantes, com tanta sutileza que quase não eram percebidos.

 
  
 

Mas há um momento em que é preciso guardar a máquina e fazer o registro apenas na fotografia mental, como dizia a Carol. Apenas se aquietar e deixar o olhar repousando. Eram essas as imagens que íamos guardar pra sempre. Das que podíamos guardar em outra memória, captamos as andanças por todo o templo. Enquanto percorríamos os imensos degraus de grama e pedras que cortavam o terreno em patamares, o sol escapou por uma brecha nas nuvens e deixou cair os primeiros raios do dia sobre Machu Picchu. Sentamos, aquietamos, repousamos o olhar para mais uma incrível foto mental. Outra boa surpresa: Filipe descobriu dois passarinhos, que aproveitaram o vão de uma pedra para se abrigar e aquecer ao sol. Presentes para nós.

 
  
 

Já era hora de fazer o passeio ilustrado pelas explicações do guia. Os meninos preferiram as explicações em inglês, mas confesso que o espanhol me era muito mais interessante. Convencemo-los a ouvir mais um pouco dos erres quicados e seguimos com esse grupo. A guia contou que algumas equipes estrangeiras de exploração arqueológica, quando souberam da existência de Machu Picchu, realizaram diversos estudos, levaram de lá material para análise, mas nunca compartilharam as descobertas nem devolveram o material.  Pessoas daquela região já conheciam da existência do lugar, mas foi um historiador americano, em 1911, que oficializou a descoberta. O que se sabe de lá é que havia sido um grande centro de estudos, onde os Incas desenvolviam habilidades e produziam conhecimento. A maioria dos esqueletos encontrados eram femininos. Algumas teorias dizem que Machu Picchu se manteve tão preservado porque seus habitantes deixaram o santuário antes da chegada dos espanhóis – possivelmente para que eles não o descobrissem e terminassem por destruí-lo.

 
 

Depois de percorrer as tantas ruelas de Machu Picchu, ou “Montanha Velha”, estava na hora de encarar Wayna Picchu, a “Montanha Jovem”, imponente, desafiadora e cansativa só de olhar. Foram algumas horas subindo e descendo, mas valeram a incrível vista que ela oferecia dos seus 2.634m de tudo que estava em seu entorno. Cati nos inspirou a entrar em contato com as forças da natureza e cada um escolheu a sua própria e original posição de ioga, algumas que até Shiva desconhecia, e tiramos uma foto para a posteridade.


 
 

De volta à Montanha Velha, encontramos um cantinho de sombra num imenso espaço gramado, onde deixamos as coisas, a mochila, o tênis, o que tinha sobrado de perna e do resto do corpo e deitamos para descansar. Foi bom se distrair vendo o movimento das outras pessoas que passavam por ali, das crianças brincando de pular nos degraus, do casal namorando embaixo de outra sombra, e por alguns momentos Machu Picchu ficou mais próximo da Terra que dos céus.


Chegava o momento de partir e, na última caminhada, as promessas de voltar retornavam. Nos perdemos algumas vezes entre os tantos corredores, talvez não quiséssemos mesmo ir embora. A última despedida, filmada pelo Edu: “tchau, Machu Picchu, até a próxima”.

 
  

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