20110726

10o. dia - 06.09.09 - Ilha do Sol/La Paz

O frio deixava a cama irresistível, mas como estávamos na Ilha do Sol, perder a recepção do Astro Rei seria uma grande desfeita com o anfitrião. Fui para o refeitório, abri a larga janela de vidro, peguei uma cadeira e aguardei a chegada do amanhecer. Era tudo tão bonito que, como poucas vezes me aconteceu, a espera foi agradável. Aquele momento não se contava em minutos, mas em detalhes. As montanhas, que tinham ficado escondidas no escuro da noite, começavam a aparecer, e uma listra dourada ia escorrendo pelas águas. Sol de desenho de escola, com aqueles tracinhos fazendo os raios, mas preenchido de um amarelo-alaranjado que não tinha nos lápis da Faber Castel. Cor de luz quente, intensa, que os olhos não conseguiam delinear. E eu ali, quietinha, tentando escolher a melhor trilha sonora nas músicas do mp4. Couting Crows, Travis, Jorge Ben, Chico. Por fim, agradeci os mestres pela boa companhia, mas acabei tirando os fones. Tem momentos que são tão grandes que só cabem no silêncio. 


Hora de se despedir dos tantos presentes da Ilha do Sol. Mas quem deixou pra tomar banho por lá teve um desentendimento com o chuveiro parecido com o que tive em Puno. A senhora que cuidava do hostel, de tranças longas, roupas típicas e corpo forte, nos disse que não era fácil conseguir água. Tivemos essa prova quando encontramos os burrinhos (iguais ao burrinho do Schrek!) subindo o longo percurso com muito esforço e tonéis no lombo. Tentamos conversar mais um pouco com ela, pedi para tirar uma foto, mas a senhora chola (como são chamadas) era de pouquíssimas palavras e aberturas.


As águas cristalinas do Titicaca convidavam a um mergulho. Se o frio não fosse tanto, duvido que os cariocas tinham resistido. E enquanto esperávamos o barco chegar, vimos uma mãe embrulhar seu bebê em dobras e dobras de tecido, acomodá-lo num outro pano e fazer uma manobra arriscadíssima para principiantes que fazia a criança ficar ajeitadinha em suas costas. Que cena linda! E por um sole, consegui a foto que eu tanto queria – uma das melhores da viagem.


Atravessamos pela última vez (ou assim pensávamos) o majestoso lago, ao som de sambinhas na voz rouca e boêmia de Martinália. Era o encanto das viagens que se misturava à saudade de casa e da presença de outros amigos. Terra firme, mochilas nas costas, próximo destino: La Paz (por 25 bolivianos a passagem de ônibus). A capital chegou depois de alguns quilômetros de estrada e mais uma travessia sobre as águas (balsa – 1,50 bolivianos). No caminho, paramos numa cidadezinha onde acontecia uma feira, com muitas comidas gordurosas e uma bebida característica de lá. Havia em copinhos já preparados uma espécie de fruta inteira coberta com água. Quando tentamos saber o que era, ouvimos uma risada irônica e uma resposta atravessada. O povo da Bolívia não nos dava boas primeiras impressões. Bom, eram apenas as primeiras.


Ficamos no Hostel Copacabana, que nos custou 70 bolivianos. Chuveiro quente, bom café da manhã, internet grátis – foi uma boa escolha. Agora era deixar as coisas no quarto, pensar a programação dos próximos dias, descansar e descobrir a night de La Paz. Acabamos indo parar na “Noite brasileira” no Hard Rock Café. Um lugar bacana, mas eu saí de lá com medo do que eles acham que é Brasil. Uma night, como diria Filipe, muito estranha...

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