Era dia de se despedir de Cusco e ainda faltavam alguns pontos do nosso boleto turístico para visitar. Acordamos para o último café no Pirwa BackPacker, um hostel muito charmoso, que tinha na fachada pequenas janelas com plantas e flores e o piso de madeira corrida. Para os pés que se pretendiam silenciosos, esse piso foi um péssimo aliado, mas emprestava ao lugar um ar de casarão colonial. Encontramos também algumas dificuldades no banheiro feminino, que tinha duas portas de entrada, uma na frente e outra na lateral, as quais podiam ser acessadas (e nos surpreender) a qualquer momento. Sair de toalha, se secar e se vestir sem deixar nenhuma parte íntima à mostra foi um dos maiores desafios da viagem. Com três dias, já tínhamos desenvolvido técnicas valiosíssimas que seriam passadas às próximas gerações. Outra curiosidade: estávamos eu e Carol conversando de um box para outro quando surgiu um terceiro interlocutor. Era o Edu, do banheiro masculino, que ficava ao lado. O resumo disso tudo é que o pessoal do Pirwa projetou o mais perfeito banheiro feminino para homens. Brincadeiras à parte, gostamos muito da hospitalidade do lugar e das pessoas que trabalhavam ali. Ganhou algumas estrelinhas para ser recomendado pelo Rafa no mochileiros.com.

Saímos para trocar dinheiro e andar pela cidade. Fazia um dia muito agradável: sol e poucas nuvens. Mulheres conversando na praça, turistas circulando nas ruas, pessoas lendo as notícias na banca jornal – algumas muito parecidas com as trágicas manchetes aqui no Rio. Ali pelo centro as ruas eram de pedras bem lisas que deixavam a cidade ainda mais bonita. Um som de sax chegava pelos corredores das calçadas. Logo depois, vimos um homem tocando uma espécie de instrumento de brinquedo, mas que fazia um som muito parecido com o do saxofone. Contou que ele mesmo construía as interessantes peças. Edu acabou levando uma – recordação de Cusco para sua coleção de instrumentos.
Seguimos em direção a Tipón para mais uma visita às ruínas Incas. Não tinham mais o frescor da novidade, mas serviu para descansar um pouco e pensar sobre as tantas coisas que estavam acontecendo na viagem. Dessa vez sem guias, cada um seguiu um caminho ou descobriu um canto pra estar. Depois, nosso motorista nos levou para provar uma das iguarias da região. O nome do prato, e do animalzinho que era cortado ao meio e posto na brasa, era Cuy. Uma espécie de coelho pequeno, ou rato grande, que já tínhamos encontrado em outras ocasiões, bem melhores que esta. E o pior era ver a forma do bichinho, estava lá a cara dele – mas mesmo assim topamos experimentar. Grande decepção. Menos pro Filipe: fim de almoço, prato limpo. Junto com o Cuy, acompanhamentos muito picantes, batata e coca à temperatura ambiente, como era comum. Nem sempre as tradições locais, como a culinária, nos agradam, mas para os que estão dispostos a conhecer vale a pena a experimentação.
A próxima parada foi em Pikillacta. Era um imenso terreno com gramas baixinhas e esparsas. Ao fundo, montanhas e trechos de um lago de cor muito azul. Subimos os grandes degraus com mais algumas paredes de ruínas, dessa vez de uma civilização pré-Inca, e descobrimos do outro lado uma boa e velha partida de futebol. Edu e Rafa até pensaram em se oferecer para completar o time, mas correr naquela altitude ao lado de pulmões andinos seria desvantagem demais. Deixaram pra próxima. Mais uma vez sem guia, o passeio ficou livre para caminhadas e descansos. Carol e Edu cantaram mantras e outras músicas bonitas. Eu fiquei de longe ouvindo e apreciando a paisagem, que eles ajudavam a compôr. Por fim, nos juntamos e, em coro, cantamos até marchinhas de carnaval, com uma animação digna de bloco do Boitatá. Aquelas ruínas nunca havia sido testemunhas de uma seleção musical tão peculiar.
No fim do dia, ainda deu tempo de passar no Mercado Central de Cusco. Era um grande galpão que reunia todo tipo de mercadoria: carnes, frutas, chocolate, roupas, souvenires. Entramos pelo corredor do açougue – homens levando e trazendo imensas peças nos ombros, cabeças de boi expostas nas bancas, muito vermelho de sangue. Passamos logo à próxima seção. Entre as barras de chocolate empilhadas e outras delícias foi bem mais agradável circular. Aproveitamos para comprar alguns presentes. Tudo, depois de uma boa negociação, podia ser levado por um preço menor.
Pra terminar, um happy hour no próprio hostel. Fizemos amizade com duas alemãs que tinham a boa vontade de tentar entender nosso inglês. Pisco de cortesia e um barman que adorava música brasileira. Ficou por nossa conta a trilha sonora, mas dessa vez deixamos aos profissionais de dentro do mp4: Jorge ben Jor, Tim Maia, Roberta Sá, Os Mutantes. E adivinha quem estava por ali, ajudando o barman? Ele mesmo – Jesus, que dessa vez prometeu estar no Brasil para a Copa do Mundo. Ele também precisava de férias.
Essa noite passaríamos viajando até a próxima cidade: Puno. Como todos os passeios que fizemos, foi mais uma vez Sílvia que nos ajudou a organizar o transporte. Acabamos deixando a hora chegar mais rápido que o esperado, pegamos as mochilas correndo, entramos na van, chegamos atrasados na rodoviária e descobrimos que nossa mentora tinha poderes além-hostel. "Por acá" - se referia apontando para um dos guichês das empresas. Entramos sem entender nada e entre papéis, bilhetes e um carrinho de neném, uma segunda passagem se abriu, que dava diretamente para o nosso ônibus. Continuamos sem entender, mas muito agradecidos aos poderes e à boa vontade de Sílvia, que nos ajudou a chegar a tempo.













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