20110726

1o. dia - 28.08.09 - Aeroporto

Dizem que um sinal de que a viagem será boa é quando ela começa cheia de tropeços. Nosso mochilão pela América Latina, então, prometia ser o melhor. Desde que havíamos comprado as passagens para Lima, Peru, fazíamos contagem regressiva, de dias riscados no calendário, para a chegada daquela sexta-feira 13, ou melhor, 28. Vinte oito de agosto de dois mil e nove – e se o desgosto honrava a fama do mês, teríamos mais outros vinte e poucos dias para desfazer esse carma.
Ainda muito antes dessa data, já muitos encontros e desencontros que formaram nosso pequeno grande grupo de mochileiros. Essa viagem é sonho muito antigo, que se não fosse sonho, já estaria de cheia de poeira e guardada no porão. Quando ouvi em conversas quaisquer que o Filipe iria fazer essa viagem, decidi ir junto. E nessa decisão não cabia o bolso furado, o salário pequeno, os compromissos inadiáveis, o perigo que seria eu carregando tantas coisas sem poder perder nenhuma. É claro que quando a gente pára e pondera tudo isso, sem querer, hesita. Mas a decisão já estava tomada – a solução então era dar um jeito.
E aí a gente pensa em três coisas: arrumar as malas, não esquecer da máquina e chamar todos os amigos. Todos concordam, mas nem todos podem ou conseguem, e os que deixam um mínimo de esperança viram presas fáceis para apresentá-los a um leque infinito de argumentos. Eu sou boa nisso, modéstia parte. Mas só consegui convencer a Carol. Que disse que já tinha falado sobre esse mochilão com o namorado. Que já tinha combinado de fazer a viagem com um amigo. Que queria levar a namorada. Pensando bem, não tenho tanto crédito em convencer as pessoas, mas pelo menos a tentativa desencadeou bons encontros.
Nisso, o Filipe já estava de passagens compradas e iria partir num período que não era consenso de todos. Quando fizemos uma reunião para conversar sobre a viagem com os possíveis candidatos, onde Rafael e Eduardo, de lap top em mãos, traçavam o roteiro pelo Google-organization-your-on-trip, falavam sobre todos os relatos que tinham sido pesquisados e lidos com antecedência, apontavam todas as furadas que os outros viajantes tinham passados, ele resolveu acertar seu embarque para a data escolhida, com um leve receio de acabar ir parando em Massachucets, se fosse sozinho. O dia do embarque ainda deixou pendências, porque talvez Rafael precisasse estar no Brasil na data pensada. Com quase tudo certo, Catarina recebeu uma proposta de trabalho para começar em breve. E depois de tantos vai-e-vens, compramos a passagem para o grupo todo.
Por fim, chegou o ansiado dia vinte e oito. Pisamos no aeroporto às 3:50 e saímos às 18:35. São Paulo emburrou a cara pros cariocas, encheu o céu de nuvens e não quis receber ninguém. Coisa de quem guarda mágoa por perder tantos elogios para o primo bronzeado de sol e que leva a namorada para ver estrelas. A garoa da terra da garoa nos tomou algumas horas, mas conseguimos chegar. O aeroporto de Guarulhos estava pequeno pra tanta gente, tantas filas, tantas reclamações e cansaço. A Catarina gastou duas horas e meia daquela tarde e todo o espanhol de um ano morando na Venezuela tentando adiar também a segunda passagem de avião, mas nada foi resolvido. Já cansadas de tanto esperar, eu e Carol nos debruçamos sobre um balcão abandonado para assistir o pôr-do-sol e ter uma boa conversa sobre a necessidade da flexibilidade e da criação diante do imprevisto. Uff, uff... Depois de ler e reler todos os relatos sobre os lugares por que passaríamos, fazer amizade com o israelense na fila, tirar foto na cadeira da moça do balcão de informações, comer o primeiro frango frito da viagem, depois de tudo isso, finalmente, saímos das fronteiras dos check-in. Passamos nossa primeira noite em São Paulo, e se não fosse o jantar de frutos do mar do hotel pago pela TAM, sampa teria menos pontos ainda em seu histórico.
O Filipe tinha passagens por outra empresa e, a essa altura, já estava cadastrado no quarto de não fumantes, de banho tomado, recomendando salmon com molho de maracujá para o jantar e achando tudo ótimo. Já viajamos algumas vezes juntos e essa é uma característica que muito admiro nesse meu amigo errante: tudo está sempre ótimo. Chuva na praia é lindo, cachoeira com frio não diminui a vontade de entrar, aeroporto fechado e filas enormes nos ajudam a fazer novos amigos. E era por causa dessas casualidades que poderíamos comemorar o aniversário do israelense que conhecemos na fila, que completava 25 anos nesse dia. Está certo que ele já tinha ido dormir quando descemos para jantar, mas o Filipe bebeu duas cervejas em sua homenagem.



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