A madrugada no caminho de Cusco para Puno foi a mais fria de toda a minha vida. Com o saco de dormir no porta-malas do ônibus, foi preciso mil e uma artimanhas vestuárias para não ficar congelada, assim como estava a água no vidro da janela. Zíper do casado fechado até em cima, cachecol enrolado nos pés, mãos escondidas dentro das mangas e pernas encolhidas o quanto podiam. Fiquei tão miúda que quase desapareci no banco. Uma noite difícil. Chegamos na rodoviária de Puno pela manhãzinha; descemos, mas o ônibus continuou viagem, tinha outro destino. Logo fomos abordados por algumas pessoas vendendo pacotes turísticos. Um homem nos acompanhou até a praça de alimentação e após muitas idas, vindas e negociações, nos convenceu a fechar com ele o passeio ao Lago Titicaca. Visitaríamos as Ilhas Flutuantes e a Ilha de Taquile. Custou 40 soles, pela companhia Incatour. Deixamos a bagagem em seu escritório, uma sala com apenas uma mesa e muitas mochilas amontoadas no chão. Estas eram as melhores referências que podíamos ter do lugar: pelo menos, muitas pessoas tinham confiado. Não havia armários com lockers, mas levar as mochilas estava fora de cogitação. Além disso, minha cota de perdas do dia já estava encerrada: na correria da saída de Cusco, havia esquecido no banheiro minha necessáire. Maquiagem, desodorante e boa parte do dinheiro escondida lá dentro – estratégia que saiu pelo avesso. Quinze minutos de tristeza, um dia inteiro de preocupação, mas nada de estragar a viagem.
A primeira vista ao Lago Titicaca não foi a do “Diários de Motocicleta”. Muitas plantas aquáticas faziam parecer que suas águas eram poluídas - impressão que foi logo desfeita. O que nos ficaria era sua imensidão surpreendente e uma transparência indescritível. Estávamos navegando por águas doces a 4000 metros de altitude. O guia da nossa embarcação ia dando as explicações sobre os povos que viviam no Lago, sempre em espanhol e em inglês. Falar inglês é quase um requisito para os que trabalham com o turismo – no fim, esse idioma acabava sendo um grande veículo de comunicação entre todos.
De longe, já avistávamos as cores fortes que faziam as roupas cintilarem. Estávamos chegando às “Islas Flotantes”. Eram pequenas plataformas, sobre as quais os índios Uros, que ali viviam, construíam suas habitações. O chão, as casas e tudo mais que havia era feito de junco, uma planta muito comum no lago. Era a mesma que não tinha me dado uma boa impressão no início do passeio e que agora se revelava fundamental para aquele povo. Além de servir como matéria-prima às construções, podia ser consumida. A alimentação naquela região era baseada no que o Titicaca podia oferecer: peixes, patos e outros animais. Um grupo estava à nossa espera. Descemos do barco e nos reunimos em torno do chefe para mais algumas explicações. Naquela ilha, moravam seis famílias. Ele nos falou um pouco sobre sua cultura, de que forma viviam e como confeccionam seu espaço. Era impressionante pensar que um povo podia se estabelecer assim – sobre as águas. Contou que o inverno castigava bastante pelas baixas temperaturas. A maioria sofria de reumatismo e artrite. Antes, recebiam apoio do governo para na produção de energia solar, mas a nova gestão não sustentou o projeto. Dependiam do turismo e da venda de artesanato para a aquisição de recursos, e por isso qualquer conversa que tentávamos ter se transformava em pedidos para levar este ou aquele colar. Carol não sossegou enquanto não descobriu como funcionavam as idas ao banheiro. Fizemos algumas hipóteses, mas foi preciso a confirmação: parece que precisavam pegar um barquinho e ir a uma pequena plataforma, onde faziam as necessidades e misturam à terra – assim foi explicado. Curiosidades esclarecidas, seguimos à outra ilha enquanto novo grupo de turistas se aproximava. Quem pagasse 10 soles, podia fazer a travessia numa embarcação muito bonita, também construída de junco. Apesar da insistência um tanto constrangedora, seguimos no nosso barco mesmo: infelizmente, o orçamento estava apertado.
Depois, atravessamos o Lago Titicaca em direção a Ilha Taquile, a maior ilha daquela região. Estava um incrível dia azul, com pouquíssimas nuvens perdidas no céu. A imensidão do lago era mesmo impressionante. O guia nos explicou que lá vivia uma comunidade quéchua, um dos povos mais antigos naquele território. Eles tinham uma pele muito morena, queimada pelo frio e pelo sol. Os homens casados usavam uma touca vermelha, enquanto os solteiros, uma branca - as quais eles próprios teciam. Filipe, acostumado às festas do sinal de Nova Friburgo, onde vermelho é “namorando”, amarelo é “pode chegar, mas vai com calma” e verde, “vemnimim que eu tô facinha”, assim que avistou uma toquinha branca quis me arrumar um casamento. E por apenas mil soles, ainda podia adquirir já uma casa própria - e com vista para o Lago Titicaca - que tinha o anúncio da venda escrito na janela. Apesar dos atrativos do pacote, preferi continuar a subida - uma senhora subida, vale lembrar. Não imaginava aonde podia estar minha mochila nesse momento, mas foi muito bom não tê-la nas costas. Ao longo do caminho, íamos encontrando outros moradores da ilha. Passamos por um menino que, distraído, folheava a cartilha do colégio: fotos da cultura do Peru.
A praça central de Taquile era um pátio rodeado por construções bem estruturadas e uma igreja. Crianças se aproximavam pedindo para que batêssemos fotos e cobravam “una propina” por elas. Maria Luz e sua amiga murmuraram frases até nos convencerem a comprar pulseirinhas por apenas 1 sole. Haviam sempre muitas crianças por toda parte. Almoçamos no restaurante Pachamama uma de nossas melhores refeições. De entrada, uma sopa de quínua; no prato principal, arroz, salmón e legumes, e chá de coca para quem quisesse. No caminho de descida, muitos homens subindo com telhas nas costas – era assim que chegava o material das casas.
A praça central de Taquile era um pátio rodeado por construções bem estruturadas e uma igreja. Crianças se aproximavam pedindo para que batêssemos fotos e cobravam “una propina” por elas. Maria Luz e sua amiga murmuraram frases até nos convencerem a comprar pulseirinhas por apenas 1 sole. Haviam sempre muitas crianças por toda parte. Almoçamos no restaurante Pachamama uma de nossas melhores refeições. De entrada, uma sopa de quínua; no prato principal, arroz, salmón e legumes, e chá de coca para quem quisesse. No caminho de descida, muitos homens subindo com telhas nas costas – era assim que chegava o material das casas.
Na volta para Puno, cochilos, conversas e um bom momento para apreciar o Titicaca. Deixamos o lago com o mais bonito nascer da lua, que despontava brilhante e amarela atrás das montanhas, deixando seu reflexo propagar nas águas. Encontramos as mochilas estavam no mesmo lugar que deixamos. Aproveitei que na rodoviária tinha internet e telefone para mandar um email para Sílvia e tentar ligar para o Pirwa, na esperança de terem achado a nécessaire. Por muita sorte, haviam deixado na recepção (como eles orientam logo que se chega no hostel), e pedi encarecidamente a Yeshica, com quem falei, para enviar à rodoviária de Puno. A moça que alugava o telefone me orientou a fazer esse pedido, já que os motoristas de ônibus podiam trazer. Yeshica disse que faria todo o possível. Agradeci a todos pela ajuda e boa vontade. “No hay problema” – foi a frase que mais ouvi e adorei. Agora só restava esperar.
Para fechar o dia, uma deliciosa pizza no Del Buho, com a famosa coca-cola de armário. Na saída, encontramos um grupo de música local, cujo ‘principal cantante’ convidou os meninos pra dançar, mas diante da recusa, teve que se contentar comigo e Carol. Muito difícil acompanhar os passos daquela dança. Eu e Filipe entramos numa boate “free pass”, mas saímos logo depois – ainda que brevemente, era preciso aproveitar as regalias. De qualquer forma, continuamos ouvindo as músicas, o barulho dos carros, a conversa dos bêbados e toda a movimentação da cidade de dentro do Hotel Calle Libertad, no qual passamos a noite por 20 soles. Mas já era hora de fechar os olhos – em pouco tempo, precisaríamos estar novamente de pé.













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