Por fim, no dia vinte e nove de agosto de dois mil e nove, seis mochileiros desembarcaram no aeroporto de Lima, um seguiu para Cusco, e, às quatorze horas e trinta sete minutos, pisaram em terras estrangeiras. Esse foi um marco na história do mochilão pelo mundo.
Os táxis de lá eram bem diferentes. Cada carro de uma cor e nenhum deles com taxímetro. Eu, ainda impregnada pelo receio que todo morador do Rio de Janeiro carrega como um santinho na carteira, desconfiei de toda aquela negociação com os motoristas que surgiam. Mas era preciso arriscar. Cinco num carro onde só podiam quatro, mochila no colo, preço combinado, partimos em direção ao bairro de Miraflores, que os relatos indicavam como um dos mais agradáveis. Ficar lá era o “bizu”, como dizia o Rafael quando se referia às melhores dicas. Mochileiros.com nunca havia sido tão bem aproveitado . O caminho até lá foi nosso primeiro contato com as paisagens do Peru. As ruas que nos afastavam do aeroporto lembravam a nossa Av. Brasil – casinhas de tijolos e uma simplicidade das gentes pobres. Nesse táxi inauguramos o uso do nosso peculiar espanhol, uma espécie de português falado devagar e que tremia os erres das palavras. Difícil de entender, mas eficiente na malandra arte de se virar. No fim, a comunicação se fazia. Rafael e Catarina ouviam tudo sem esconder o riso – era mesmo engraçado. No auge da conversa com o taxista, rua já tinha virado rrrrrrrrrrrua – o que pouco adiantava porque, em espanhol, se chamava “calle”. Foi ali também que conhecemos o grande sucesso de Los Villa Corta – “Amor Pirata”, que viria ser a trilha sonora dos momentos mais importantes da viagem. Os versos-refrão da música seriam cantados tantas vezes que tivemos que inventar o resto da letra.
Ainda dentro do táxi, comecei a sentir os efeitos da diferença de altitude. Eu, que tenho uma respiração muito curta, comecei a inspirar grande e fiquei com uma leve tonturinha, de dois chopps com estômago vazio, que ainda me acompanharia pelos próximos dias. Carlos era o nosso taxista, e desfez minha desconfiança pela simpatia e boa vontade. O hostel que buscávamos não tinha vagas e ele se propôs a nos levar a alguns outros, nos quais paramos para ver os quartos e perguntar o preço. E tudo isso pelo mesmo valor da corrida combinado no aeroporto. Me deixou uma boa impressão dos peruanos, que se manteria por toda a viagem. Decidimos ficar no Hitchhikers, por 18 soles a diária, com direito a café da manhã. 1 real significava 1,43 soles, o que transformava nosso banho quente, cama, cobertor e pão com geléia em menos de 13 reais por dia. Depois de tantos anos acampando, passando as noites à luz de velas, em sacos de dormir, tomando banho gelado, minha primeira noite em albergue foi como num hotel cinco estrelas. Maravilha! Tinha ainda duas salas de tv muito aconchegantes, com uma prateleira de filmes e cartazes dos mais famosos enfeitando as paredes. Do lado de fora, recados dos viajantes que passaram por ali.
À noite, saímos para conhecer um pouco da cidade. Já tínhamos a dica, dessa vez dos próprios limenhos, de um lugar chamado Barranco – uma rua de bares e boates. Um dos bons modos de descobrir quais espaços vale conhecer é conversar com as pessoas que moram na cidade e, de preferência, com mais de uma. Além de ficarmos com diferentes pontos de vista, aproveitamos para conhecer as próprias pessoas, algo muito precioso.
Passeamos antes pelas proximidades no hostel. Descobrimos outras ruas de bares e uma grande praça, com uma feira de artesanatos e todo tipo de bugigangas. Havia muitas pessoas circulando por ali, velhinhos sentados nos bancos, garotos andando de skate, casais namorando, crianças brincando. Nos surpreendeu o quanto a praça era habitada à noite, algo que raramente vemos no Rio. Pegamos um táxi para ir a Barranco – combinávamos um preço antes e, dividido por todos, era sempre o meio de transporte mais vantajoso. E para baixar de vez meu desconfiômetro, lá estava ele, Jesus, dirigindo um dos carros coloridos do Peru. Ele é simpático como eu imaginava e confessou que adorava o povo dessa parte de baixo do Equador. Disse que os passageiros latinos eram sempre os mais conversadores, mesmo que fôssemos nós, com o nosso espanhol de araque. Nos deixou na rua combinada, mas não pudemos sair do carro sem antes terminar de ouvir as últimas notas de “Amor Pirata”, que ficaria impregnado na nossa memória.fm para todo o sempre. Com uma caneca de 1,5l de Crystal (que deixa no chinelo a Cristal brasileira) e uma cortesia de milho torrado (uma delícia! com uns grãos enormes, crocante por fora e molinho por dentro), encerramos nossa primeira noite no Peru.
LULU, to aqui lendo tudo e me deliciando com essa aventura maravilhosa!!!
ResponderExcluirbeijinhos