20110726

28o. dia - 23.09.09 - de volta ao Brasil

Coloco nesse último dia os emails mandados para amigos e familiares durante a viagem. É um resumo-diário que conta algumas das histórias. Bom de lembrar...

30.08.09 – notícias de cá

Queridos,

Finalmente paramos um pouquinho e posso mandar notícias com calma. Fazem dois dias que saímos em viagem, mas só hoje demos o primeiro passo fora do país. São Paulo resistiu, fechou o céu de nuvens, mas nós fomos mais insistentes e conseguimos chegar à primeira escala. O vôo para Lima já tinha partido, foi remarcado para o dia seguinte, ficamos mais algumas horas tentando resolver a passagem Lima/Cusco (que também acabou sendo perdida), mas pelo menos passamos uma noite num bom hotel, com jantar de frutos do mar, uma cama confortável, o chuveiro mais quente do mundo - e tudo pago pela TAM. Hoje foram mais algumas confusões, mas nossa vontade de seguir por essas estradas é bem maior que qualquer quebra-mola. Ao lado de amigos queridos, então, fica ainda mais fácil. No fim, a gente acaba fazendo piada e dando risadas disso tudo.
Essa viagem está sendo exatamente como eu imaginei - completamente diferente do que eu imaginava. Mas algumas coisas não podiam ser diferentes - sorriso no rosto, espanhol arranhado, inglês aprendido nos filmes e mochila nas costas. Estamos hospedados num albergue adorável! Depois de tantos anos dormindo em saco de dormir, armando barraca e tomando banho gelado, estou me sentindo num hotel 5 estrelas. Lima é uma cidade de muitas belezas, mas acredito que as maiores ainda estão por vir. Na próxima semana estaremos em Machu Picchu - estou com a agenda que pedi a Deus. Estamos conhecendo novas pessoas a cada minuto. Já ouvi uma frase em hebraico, de um amigo israelense que fizemos numa das muitas filas do aeroporto – incrível, né? Achei que essa língua só existisse num versículo perdido do velho testamento. E por falar nisso, conhecemos um motorista que adorou nos levar porque achava os brasileiros muito simpáticos. O nome dele - Jesus. Eu sei que ele gosta de todos da mesma forma, mas pelos brasileiros tem um carinho especial. E tenho certeza que estará a olhar nossos passos! Por isso - não se preocupem, estou e estarei muito bem amparada.

Beijos, escrevo de novo quando puder

Lu

03.09.09 – uma página, muitas histórias

Queridos,

desculpem a demora em mandar novas notícias. Por aqui, o tempo é sempre curto, os dias cheios e, por incrível que pareça, o sono longe. Claro que o corpo faz suas exigências por descanso, mas se fosse possível usaríamos até essas horas para conhecer as novidades que não param de nos chegar. Até nos sonhos continuo viajando. Tudo é incrível - esse olhar estrangeiro nos destacam belezas que nem consigo descrever. Toda palavra vira conversa, que vira encontro, que vira um mais um novo amigo. Ainda em Lima, visitamos um parque das águas que tinha todo tipo e formato de chafarizes. Estávamos sentados num dos banquinhos quando comecei a conversar com Di-e-go (assim me disse "tu nombre"), um menininho lindo de 5 anos, que é pequeno agora, mas que será grande quando fizer 10 – foi o que me contou. As crianças aqui são encantadoras. Estava eu colocando em prática meu melhor espanhol quando ele me desmascarou - "tu no hablas mi idioma, no?". Parece que vou ter que ficar mesmo mais uns dias por aqui para relembrar bem meu CCAA da sétima série. Nos despedimos e voltou para sua mãe, mas logo depois veio me dar um beijinho e disse à Carol: "mucho gusto em conocerte". Posso com isso? Ah, que lindo!!
Tudo corre muito bem por aqui. O tempo ainda nos prega peças, manda lá de cima uma chuvinha, mas já tivemos dias lindos. Em Lima ainda, ficamos vermelhas como um tomate (a Carol, como um guachinim, segundo ela, por causa do branco dos óculos) num dia surpreendente de sol. Opa, tá na hora de contar, mas, mãe, não se preocupe, já passou e eu estou bem: pulei de parapente!!! Que coisa incrível! Lá é um dos melhores pontos para a prática do salto, pois os paredões que tem na beira da praia nos deixam voltar ao mesmo ponto que partimos. Ainda fiquei em dúvida, com um certo receio, mas quando nos apresentamos, eu e meu instrutor, tive a certeza de que era pra confiar. Jesus era seu nome, e de novo ele estava lá. Ah, conhecemos o Atlântico de pertinho. A praia tem uma curiosidade muito interessante: ao invés de areia, pedras, e as ondas que vem e vão passam por elas e fazem um som como o de um chocalho.
Ainda há muito o que contar, mas já está tarde e amanha será mais um dia que começa cedo. E mesmo que eu quisesse, há coisas que a palavra jamais daria conta. Machu Picchu é uma delas. Estou sem palavras e com a certeza de que quero voltar lá um dia.
Estou tirando fotos como nunca. As cores daqui deixariam qualquer amadorismo com cara de profissional. Principalmente as imagens das feiras, que vendem artesanatos riquíssimos, cachecóis e roupas lindas - e eu gostaria de levar todas essas belezas de presente para vocês. Mas infelizmente o dinheiro é curto e a mochila pequena. O que posso fazer é contar-lhes as muitas histórias que estamos vivendo e deixar todo mundo com vontade de provar isso pessoalmente. Esse é o melhor jeito de conhecer o mundo, não é mesmo?
A viagem está sendo de muitas risadas, muitas descobertas e bons encontros. Assim que puder, mandarei mais notícias,

Beijos a todos, saudades e sorrisos, para dividir um pouquinho dos meus

Amo vocês,
Lulu

04.09.09 – mais notícias!

Meus queridos, notícias breves! Hoje conhecemos o Lago Titicaca, que fica entre o Peru e a Bolívia. Visitamos um povo que vive em umas ilhas flutuantes, construídas por eles mesmos com junco. É uma coisa incrível! O Lago também é belíssimo e hoje tivemos um dia de muito sol e céu azul. Mas apesar disso o frio é de deixar qualquer inverno friburguense no chinelo. Essa noite foi a mais gelada da minha vida, dentro do ônibus que nos trouxe a Puno. Nossa Senhora das Noites com o Saco de Dormir no Bagageiro, que freezer! Mas agora estou dentro do meu casaco quentinho que espero só tirar quando chegar aí, rs. Ah, de presente, ganhamos uma lua cheia ascendendo no horizonte quando estávamos indo embora. Jesus está mesmo conosco! E não é que o encontramos de novo, dessa vez no bar do albergue! E de novo também se confirma: Jesus adora o Brasil e estará aí para a próxima Copa do Mundo, segundo ele. Me deixou fazer a trilha sonora do happy hour do albergue: Roberta Sá, Tim Maia, Jorge Ben - fizemos bonito! Camilete, obrigada pelo som, fez muito sucesso por aqui!
Então é isso, em breve mando mais histórias. Tem tanta coisa pra contar, mas a Carol e os outros amigos estão terminando de colocar mil casacos para a noite em Puno.
Beijos para todos,
de coração alegre

Lulu

07.09.09 – na Paz

Queridos,

Há tanto o que contar que me perco entre as muitas histórias que já aconteceram desde o último email. Estamos desde ontem no meio da confusão de La Paz, sem abusar das ironias. A cidade, na parte em que ficamos, tem um trânsito louco, gente andando por todos os lados, muitas casinhas de tijolos, como nas favelas do Brasil. Muitas mesmo. Mas aí se atravessa um pequeno túnel e de repente aparece um outro bairro, muito mais rico e organizado. Fiquei impressionada num primeiro momento, mas depois me lembrei dos abismos sociais que assistimos todos os dias no Rio de Janeiro, até mesmo sem precisar atravessar túnel algum. As mulheres mais velhas aqui mantêm as tradições nas roupas e no modo como trançam os cabelos. É muito comum vê-las carregando seus filhos nas costas, enlaçados por um tecido colorido que os deixam seguros ali. A Carol fez uma boa observação - por aqui, ainda não vimos um carrinho de bebê. Não é necessário. Hoje fizemos um dos passeios mais incríveis da viagem - a visita à montanha Chacaltaya. Chegamos a 5.540m de altitude. O coração faz trabalho extra pra dar conta do recado, mas eu ainda acredito que a razão que o faz bater tão rápido e forte seja a vista daquela incrível paisagem. É muita emoção... E o mais engraçado? Das 25 pessoas que foram no mesmo ônibus para o passeio, 22 eram brasileiras. Conhecemos uma menina chamada Rita que esta morando em Cusco, mas já ficou alguns meses por aqui. Ela ficou feliz à beça em poder dizer "isso é muito maneiro" e alguém entender a grandiosidade dessa afirmação. Que bom encontrar um dos nossos por aí, faz a gente se sentir um pouco mais em casa de novo!
Outras curiosidades da altitude: meu desodorante explodiu no primeiro dia, eu vivo dando e tomando choques (acho que por causa do ar rarefeito) e as melecas viram pedras (pq o nariz costuma ficar machucado e sangrar)! Carambola!
Desculpem o email escrito meio torto, mas tem muita coisa pra contar e um cansaço que esta me cobrando uma noite bem dormida.
Beijos a todos, tenho saudades
Lu

09.09.09 – boletim mochileiro

Queridos,

Mais um boletim mochileiro! Ontem encaramos uma aventura de deixar Indiana Jones de pijama! La Paz está a mais de 3.600m de altitude, o que, além de nos deixar tontos e cansados ao subir cinco degraus, é muito interessante para a prática de um esporte chamado Downhill - que pode ser traduzido como "sai da frente que eu to descendo". Bicicletas com um bom freio, joelheiras, cotoveleiras, capacete, roupa para frio, uma certa dose de prudência e confiança, passamos quatro horas e meia sobre duas rodas e um visual deslumbrante. Jesus não estava lá, mas mandou um de seus discípulos. John (ou melhor, João, porque ele não tinha pinta nenhuma de americano) foi um de nossos guias e mais uma boa pessoa que encontramos nessa viagem. Entre as montanhas pontiagudas e geladas, curtimos essa aventura com o coração transbordante. Carol superou o trauma de um tombaraço de bicicleta quando criança e fez bonito. Esse passeio foi indescritivelmente incrivel!!! Eu sei que ando repetindo frases nesses últimos emails, mas já passamos por muitos lugares incríveis e que me deixaram sem palavras. Acho que o que mais falei nessa viagem foi "que lindo"; o povo até me zoa por causa das minhas interjeições exageradas. Mas assim são as belezas por aqui.
Amanhã à noite seguiremos para o deserto de sal e ficarei alguns dias sem dar notícias. Não se preocupem, estarei bem, podem ter certeza. Deixaremos La Paz, seu transito caótico, suas vestes coloridas, sua gente desconfiada, suas casas de tijolos, para dar mais alguns passos adiante.
Ah, outra coisa: por esses países, há crianças por toda a parte! Pelas ruas brincando, com suas mães que vendem comidas nas calçadas, voltando do colégio, pedindo trocados (propinas, como eles dizem) para tirarmos fotos. E elas são lindas! Parecem que já nascem com a bochecha vermelhinha.

Um beijo para cada um,
saudades e sorrisos

Lu

14.09.09 – periódico Del viaje

Queridos meus!

Antes de mais nada, quantas saudades! Queria fretar um ônibus e carregar todos para essa viagem. Mas como tenho um único assento, levo-os no coração e nas lembranças. Cada lugar por que passamos me remete a um de vocês. A lua espalhando prata pelo Lago Titicaca, a cara do povo pobre e sofrido desses nossos lados, a criatividade do humano que nos deixa boquiabertos, as belezas incríveis da grande Mãe Terra (Pachamama, como chamam aqui). Tem muita coisa acontecendo todos os dias. Numa das tantas boas conversa que tive com a Carol, pensamos sobre como esse olhar estrangeiro nos faz prestar atenção nas belezas da vida, nas suas intensidades, nisso que tem em todo lugar e que a gente acaba se acostumando e deixando de reparar. Reparar é uma boa lição que aprendemos nessa viagem. Estar presente no dia de hoje, é isso. Estamos ganhando muitos presentes assim. Hoje fomos testemunhas de mais uma incrível obra da natureza. Para nos localizarmos, já que as mochilas são arrumadas todos os dias em direção a uma nova cidade: estamos em San Pedro de Atacama. É uma cidadezinha com clima de Sao Pedro da Serra ou Sao Pedro da Aldeia - acho que é mal (ou bem) de nome. Aí os santos de novo, sempre dando suas bênçãos! Alugamos umas bicicletas e fomos a um lugar chamado Vale de la Muerte, que faz parte do deserto do Atacama. É uma estrada de terra com grandes morros que nos acompanham a todo tempo, num cenário cor de barro. Lindo demais! Nem posso lhes dar parâmetros: é muito diferente de tudo que já vi no Brasil. Estivemos três dias no Deserto de Uyuni - vimos sal e corais ha mais de 4 mil metros de altitude. Quando falarem que um dia o mar vai virar sertão e o sertão virar mar, digam que esse dia já passou. Pachamama deve dar risada com esses nossos espantos. O deserto tem umas belezas, de novo, indescritíveis. Lagos de cores mil - verde, vermelho, azul. Vimos flamingos, raposas, llamas com uns penduricalhos, como se estivessem maquiadas e prontas pro carnaval. Mas o mais incrível, eu achei, é que encontramos pessoas vivendo em pequenos povoados no meio do nada. Nós nos adaptamos a lugares surpreendentes. O frio que encontramos ontem foi um ótimo convite de despedida - e tem gente que passa por isso todos os dias. O deserto do Atacama é o lugar mais seco do mundo - nossas bocas e narizes não vêem a hora de sentir a marisia de novo. Mas não são só espinhos: apreciamos um mergulho quentíssimo num dos lagos termais no meio disso tudo. É muito doido lembrar que em um momento pensei que iria perder minha mão congelada e três horas depois estava de biquini.
Gente, acho que as noticias hoje param por aqui. Estou da cor do deserto de tanta poeira e é hora de tomar um banho. Família, não se preocupe, estou bem e aproveitando muito tudo isso! Muito obrigada a todos pelo incentivo, pelo apoio e por terem ajudado essa viagem acontecer.
Beijo grande no coração de cada um,
amo vcs,
Lu

17.09.09 – pelo mundo

Ao longo dessa viagem, trocamos tantas conversas que já perdemos a conta de quantas pessoas nós conhecemos. São encontros intensos, mas breves: logo depois que nos apresentamos, que contamos coisas sobre nós, que ouvimos sobre os outros, que descobrimos pessoas interessantíssimas, já é hora de se despedir. Aí ficamos com uma lista de muitos emails, algumas fotos e mais histórias para recontar. Um desses novos amigos merece atenção especial aqui nesses relatos, porque tenho certeza que, um dia, em algum momento, todos nós quisemos ser como ele.
Quando Filipe chegou do Downhill, em La Paz (ele fez por uma empresa diferente da nossa; lembram-se do Downhill? a descida de bike?), contou de um argentino doido de pedra que conheceu lá. Ele disse que o cara estava a quatro meses viajando - juntou as férias que não tirava em anos e decidiu sair pelo mundo. Ia para a América Central, fez escala em Lima e resolveu descer. O dinheiro já tinha acabado a umas três semanas e ele, sabe-se lá como, ainda estava viajando. A última notícia é que a mãe do sujeito tinha depositado 90 dólares para ele voltar para casa.
Tínhamos acabado de chegar a Uyni, uma cidadezinha de onde partem as excursões para o deserto, quando escutamos o Filipe: “ihhh, aí o cara!". Era ele, com um sorriso largo que quase saía do rosto, dizendo que usou os 90 dólares para visitar outros cantos. Fez uma baldeação e gastou muito menos que nós para chegar lá. Contou que faria um passeio pelo deserto de apenas um dia por causa da grana curta, mas três dias depois, quando nós estávamos indo embora, adivinha quem encontramos? O Argentino! Do lado de fora do ônibus, andando a pé no deserto para atravessar a fronteira Bolívia-Chile! E esse foi assunto do almoço, em San Pedro do Atacama. Todos satisfeitos, saímos do restaurante e lá estava ele, com sua mochila verde, com seu sorriso largo, ao lado do novo amigo que conheceu pela internet e que iria lhe oferecer abrigo pelos próximos dias. Depois disso tiveram outras aparições e nós desconfiamos que ainda iremos encontrá-lo em alguma outra esquina e com 57 dólares pra durar mais três meses! Muito livre esse moço!
Descobrimos que nossos 28 dias de viagem são apenas para iniciantes. Tem gente correndo perna por aí há muito mais tempo, criando outros tipos de raízes, fazendo do mundo sua casa. Ainda em La Paz, fizemos um passeio com uns meninos de Minas, e um deles me apresentou o grupo: "eu sou economista, ele é engenheiro, ele é publicitário e ele é viajante" - este estava há seis anos viajando. Ia pros lugares, conseguia um emprego, e quando achava que estava na hora, arrumava as malas de novo. Coisa que a gente tem visto nesses dias é que existem muitas formas de se levar a vida, e a gente costuma achar que só existe a das horas marcadas, da correria, do futuro planejado.
É isso, minha gente, mais um boletim mochileiro!
Um beijo pra cada um de vocês e assim que puder escrevo de novo,
Lu

19.09.09 – festejos

Queridos,

Hoje fizemos nossa última grande viagem: foram 24 horas de San Pedro de Atacama até Santiago, capital do Chile. Depois de anos de estágio nos ônibus da UFF, indo e voltando do Sul ao Nordeste do Brasil, a eterna reta de paisagens calmas do deserto nem pareceu a mais difícil. Aqui está se comemorando os feriados pátrios. Achamos que o nacionalismo estava no coração dos chilenos, mas acho que está pesando mais no bolso - há bandeiras em todas (todas mesmo) casas e estabelecimentos, e os que não as colocam correm o risco de levarem uma multa. A galera entorna de verdade nessas datas comemorativas! Chegamos a Santiago e deixamos as mochilas num posto de gasolina até encontrarmos o hostel. Um gringo nos viu e foi perguntar se havíamos passado por algum hostel com uma bandeira enorme do Chile pendurada na frente. Tinha se perdido. E acho que deve estar procurando até agora!
Mas há também muita dança e muita comida! A mais famosa dessa época tem um nome engraçado para nós: La Cueca. Os homens e mulheres dançam em pares, com um lenço branco nas mãos, e tudo acontece como um cortejo - muito bacana. Fomos visitar uma das praças da cidade hoje e encontramos todas as pessoas lá - estavam todos assistindo aos desfiles militares, deitados na grama com suas famílias, crianças soltando pipa, barraquinhas de tudo. Gostaria de contar mais, mas tem um gringo aqui com uma cara um pouco feia, acho que ele quer usar o computador também. Espírito mochileiro: vamos compartilhar e pensar nos outros!
Beijos a todos,
depois escrevo com mais calma
Lu

21.09.09 – o derradeiro

Queridos,

Só nos resta mais um par de dias em terras estrangeiras. Foi uma temporada fantástica de imagens, encontros, sensações, lugares que vão se perpetuar pra sempre na minha memória e na minha história. Foi uma experiência incrível que recomendo a todos e peço que me convidem para as próximas. Conhecer esse mundo de perto, em presença, é mais que qualquer um consiga descrever. Essa foi minha primeira de muitas grandes viagens, e aprendi muito.
Aprendi com o Filipe que é preciso ter uma base; arrumar e desarrumar a mochila tantas vezes, carregando tantas coisas, nos torna muito suscetíveis a esquecimentos. A mim principalmente. Agora que já chegamos ao fim, posso contar: quando estávamos saindo de Cusco, com pressa para pegarmos o ônibus, esqueci minha necessáire no banheiro. Maquiagem e sabonete fazem falta, mas a gente dá um jeito. Mas quando uma parte do dinheiro está escondido na bolsinha, isso passa a ser um grande problema. A sorte é que nesse mundo ainda tem muita gente boa e que Jesus estava sempre do meu lado. As moças do hostel guardaram e enviaram para a rodoviária de Puno, onde consegui recuperar tudo, inclusive o dinheiro escondido. Aprendi com o Rafael que uma boa organização ajuda muito. Esse novo companheiro de viagem já fez algumas mochilas por aí e leu todos os relatos de todos os sites de todas as pessoas que fizeram essa viagem. Nos tirou de muitas furadas e soube das melhoras dicas. Aprendi com a Catarina que um seguro-saúde é um item de grande relevância da lista. Uma chaticizinha podia ter estragado a viagem logo no início e a feito gastar muito dinheiro em remédio. Aprendi com o Eduardo que as piadas de todos os momentos são outro item fundamental, e com a nossa querida Carol, que ter um amigo do coração por perto para compartilhar as coisas incríveis que vivemos é a parte importantíssima da vida. É claro que a lista é muito mais extensa que o tempo que posso ocupar nesse computador. Gostaria de deixar horas dedicadas a ela, mas vou aproveitar os minutos que tenho para dizer que outro grande encontro que tive. Ontem passamos o dia correndo pernas por Valparaíso e visitamos a casa museu de Pablo Neruda. Gostaria de um dia de ter uma casa como a dele e, mais ainda, de escrever do jeito que ele fez. Quantas frases de arrepiar o braço! Gosto muito desses moços que souberam dizer bonito das coisas do mundo, eles me emocionam. E a casa era tão cheia de poesia e com memórias tão vivas quanto as palavras de Neruda. Foi um dos passeios que mais me encantaram! Hoje conhecemos Viña Del Mar, uma cidade vizinha, mais moça e moderna. Comprei uma mochilinha nova - a velha já estava de zíper ruim e era hora de aposentá-la. Espero que essa possa rodar muitos quilômetros por aí.
Bom, meu tempo se encerra! Fico muito feliz em receber as respostas de todos e mais feliz ainda pelas boas noticias que chegam! Depois escrevo a cada um com mais calma!
Um beijo no coração com saudades, tenho muitas saudades mesmo
Lulu

27o. dia - 23.09.09 - Santiago

O aluguel do carro era até o meio-dia e decidimos aproveitá-lo dando uma volta por Santiago. A dica era visitar o Parque Metropolitano, que oferecia uma bonita vista da cidade, deixando os prédios pequenininhos como brinquedo - coisa que não era possível fazer com os Andes, imponentes, ao fundo. Isso era  algo muito interessante em Santiago: andar pelas ruas e se deparar com os Andes no horizonte. Bela surpresa. No alto do Parque encontramos o Cerro San Cristóbal. Nos pareceu uma espécie de igreja a céu aberto, a mais bonita que já vi, com uma enorme estátua da Virgem Maria e o colorido das flores ao longo bancos de madeira.




Já desprovidos das quatros rodas, fomos conhecer o Mercado Central, uma enorme feira de carnes, pescados, frutas e outros alimentos, com restaurantes a servir tudo fresquinho. Carol, Edu e Filipe foram provar um dos pratos, enquanto eu fui dar mais algumas voltas por ali.Não tínhamos feito uma programação com os lugares a visitar - o que nos deu mais liberdade para conhecer outras coisas, descobrir ruas, mas também nos tomou um tempo que poderia ter sido aproveitado em outros pontos interessantes. Mas acabamos encontrando o Cerro Santa Lucia, um parque com muito verde e muitas escadas. Subimos, subimos e subimos - mais uma bela vista de Santiago. Havia muitas pessoas ocupando os bancos e degraus - turistas, namorados, estudantes, senhoras. Vimos o último pôr-do-sol e, no caminho de volta ao hostel, sentíamos a alegria de ter vivido tantas histórias. Era hora de voltar pra casa.

26o. dia - 22.09.09 - Vinícola Veramont e Isla Negra

Resolvemos alugar o carro para o dia. Conhecemos uma japonesa no hostel que topou dividir os gastos e participar do passeio. Ela havia trabalhado em um albergue no Brasil e, nessa época, conheceu um rapaz e começaram a namorar. O visto expirou e ela foi obrigada a deixar nosso país, só podendo voltar dentro de alguns meses. Estava então fazendo os meses no Chile e conversando com o mocinho pelo Skype todos os dias, pra matar as saudades. Que história, não?
O plano era visitar uma outra casa de Pablo Neruda, em Isla Negra, e no caminho conhecer uma vinícula. Paramos em Veramont, onde contratamos uma visita às plantações e aos armazéns, com direito a uma prova de vinho no final. A guia nos explicou sobre os processos de fabricação da bebida, sobre o tempo necessário para a produção e as diferenças entre os tipos. Infelizmente as videiras estavam na 'entre-safra', mas deu pra ver uns primeiros cachos começando a aparecer. As três taças de vinho da degustação (cada uma combinando com um tipo diferente de queijo) já foram suficientes para me deixar cheia de sorrisos. 


A viagem até Isla Negra foi realmente uma viagem. Era muito mais longe que pensávamos, mas também um lugar muito bonito. A casa era um verdadeiro museu de relíquias marinhas, que Neruda foi construindo ao longo tempo. Coleções e mais coleções que enfeitavam todos os cômodos. O poeta era apaixonado pelo mar. Havia a história de que, um dia, viu um pedaço de madeira boiando sobre as águas. Recolheu a peça e fez com ela uma de suas escrivaninhas - entendeu que era um presente para ele. Todas aquelas coisas pareciam ter sido reunidas sob uma enorme admiração e respeito. E bem na frente da casa, o Pacífico e sua imensidão. Foi nessa casa que Neruda pediu para ser enterrado, ao lado de sua última esposa e de frente para o mar.


Demoramos a achar o caminho certo na volta. O pior era pedir explicações, com sotaque carioca, sobre a direção de Santiago (que virava "Sam tchiagu") - ninguém entendeu, é claro. Mas encontramos nosso rumo e voltamos para lá, já cochilando dentro do carro.

23o. dia - 19.09.09 - Santiago

Chegamos a Santiago pela manhã. Mochila a postos, pegamos metrô até o bairro onde ficava o Eco Hostel, que seria nossa próxima moradia. Confesso que sinto um certo orgulho em carregar aquelas mochilas que mais parecem a própria casa. É o selo de quem está viajando, e os olhares que fingem estranhar a bagagem sentem, no fundo, uma vontade de trocar de lugar. Pelo menos é o que eu sinto quando estou no metrô indo para o trabalho e encontro alguém de mochilão das costas. 
Estávamos numa cidade grande, completamente diferente de San Pedro. Talvez a mudança serviria para nos ambientar novamente ao barulho dos carros, à movimentação das pessoas, a uma cidade grande. A viagem já estava anunciando o fim. Conhecemos uma brasileira dentro do metrô - sim, os brasileiros estão por toda parte!
O problema é que não tínhamos o endereço certo do hostel e por ali ninguém parecia conhecê-lo. A solução foi deixar as bagagens com um grupo, que ficou esperando num posto de gasolina, enquanto o outro andava pelas redondezas à procura do nosso lugar. Mas não éramos os únicos a estar perdidos: um gringo, que comemorou bastante a independência do Chile e voltava agora das farras, nos perguntou se tínhamos passado por algum hostel com uma bandeira na frente, porque ele não lembrava o nome do lugar onde tinha se hospedado. O detalhe é que todas as casas e estabelecimentos, nessas épocas, eram obrigados a pendurar a bandeira do Chile. No início, achamos que era puro patriotismo, mas depois de encontrar algumas bandeiras pretas ao lado destas, descobrimos que mais isso: quem desrepeitasse a ordem, receberia uma multa. Carol e Edu finalmente conseguiram achar o Eco Hostel e fomos logo fazer o check-in; quanto ao gringo, não soubemos como ele se virou.


Os casais preferiram alugar um carro para ir conhecer as cidades próximas. Eu e Filipe ficamos em Santiago e tivemos a boa surpresa de encontrar, num dos parques mais famosos, uma festa pátria em grandes proporções. Desfiles militares, figuras políticas (deu até pra ver de longe a presidente Michelle Bachelet), apresentações aéreas dos esquadrões, famílias fazendo pic-nics na grama, crianças brincando, música e comes e bebes. Foi lá que descobrimos um maldito canudinho de chocolate, que eu comeria até o resto da viagem.


24o. dia - 20.09.09 - Valparaíso

Acordamos e arrumamos a mochilinha para dois dias: iríamos conhecer as cidades Valparaíso e Viña del Mar. A estrada que ligava Santiago à nossa primeira parada era muito bonita, e ficava ainda mais com o dia de sol. Na rodoviária, fomos abordados por guias que ofereciam pacotes de passeios pelos pontos turísticos. Como estávamos querendo reduzir os custos e de fato explorar a cidade por nossas próprias andanças, ouvimos as explicações com atenção, marcamos os pontos importantes, pegamos o mapa, agradecemos e seguimos adiante. Esse mapa foi fundamental para nos acharmos e aos lugares interessantes. Caminhamos pelas ruas com olhar de turista: tirei fotos de tudo. A feirinha na praça, o cinema, uma apresentação da famosa dança "La Cueca", com trajes típicos e bailarinos de todas as idades, na frente do coreto - lembrando os ares de cidade pequena. Mas já com as Megastores de roupas e acessórios que encontramos no shopping onde fomos almoçar, e com os fast foods (mas temperados pela culinária local - lembra do "completo"?). 


Seguimos para conhecer um dos lugares por mim mais esperados: a casa de Pablo Neruda. Ficava num bairro alto (que lembrava Santa Tereza), com pinturas nas paredes, casas coloridas, os ascensores, futebol na rua, pipa no telhado - era a cara de Valparaíso. A casa de Neruda havia sido transformada num museu, com a preservação da disposição dos móveis e outros objetos que ajudavam a contar sua história. Na entrada, ganhávamos um fone e um mapa, e quando chegávamos a algum ponto demarcado, apertavávamos um número e ouvíamos uma explicação. Assim todos eram orientados como numa visita guiada e sem hora marcada. Cada objeto tinha, de fato, uma história. Neruda havia sido um homem apaixonado pelas pessoas e pelas coisas. Percebia-se que ali tinha espaço para todos os seus amores: para receber os amigos, para se dedicar à escrita e à política, para os aconchegos da intimidade. E a poesia estava em toda parte, inclusive na bela vista de Valparaíso que aparecia através das janelas de vidro. Comprei um postal com um de seus poemas impresso - mais uma lembrança que levava de lá.


Continuamos andando pelo centro até chegar à área portuária. As construções antigas eram cenário a todo tempo. Até na parte mais moderna, encontramos prédios construídos dentro das fachadas originais. Subimos pelo ascensor, uma espécie de bonde que faz um trajeto inclinado para facilitar a subida e a descida dos cerros (morros). Foi mesmo para conhecer, já que seria possível, com um pouco de disposição, fazer o percurso a pé. Chegamos a um coreto com mais uma incrível vista da cidade portuária mais importante do país. O resto da tarde foi de mais caminhadas pelas ruas, becos e avenidas. O Filipe tinha uma tia que morava em Viña del Mar e aproveitamos para uma visita, percorrendo a orla que ligava as duas cidades. Nos despedidos de Valparaíso com as luzes começando a acender.


25o. dia - 21.09.09 - Viña del Mar/Santiago

Dormimos num hostel que nos pareceu bonito e bem arrumado, mas fomos enganados pela aparência. O quarto cheirava a mofo, o chuveiro não ficava quente, mas já era tarde para procurar um novo lugar. Só por uma noite - era o que nos consolava. 
Acordamos e dessa vez fomos bater pernas por Viña del Mar. A cidade, com pose de chique, parecia concentrar a modernidade que Valparaíso tinha dispensado para manter o charme. Era segunda -feira de manhã e o comércio estava fechado em boa parte. Também chovia - resolvemos então fazer hora em um shopping. A hora serviu para sairmos de mochila nova, inaugurando os primeiro quilômetros da "Head" vermelhinha. As ruas por onde andamos eram muito bonitas e organizadas. Encontramos um cassino e, é claro, entramos para conhecer. Segunda de manhã já tem os seus fiéis apostadores, sentados nas maquininhas e pedindo mais fichas. Seguimos para outros lugares, ali não era mesmo a nossa praia. A praia banhada pelo Pacífico também estava bem diferente da nossa, com uns poucos visitantes de tênis e casaco arriscando um passeio pela areia, e mais um ou outro passeando com o cachorro. Ainda assim, praias são quase sempre lugares bons de se estar. Andamos pelos contornos da cidade, chegamos a outros cantos e terminamos o passeio num parque agradável, com um anfiteatro de desenhos muito diferentes em sua cobertura. Falávamos de como estava sendo a viagem, talvez para entender que já estávamos nos últimos dias. Isso nos causava uma espécie de tristeza conformada, por deixar os dias de grandes novidades, mas consolados por retornar para aqueles que já nos traziam saudades. À noite, encontramos os casais, que tinham feito um passeio às montanhas geladas para esquiar. Minha grana que já beirava o fim não me deixou acompanhá-los, mas disseram que era ótimo e que valia a pena!  Cati e Rafa se despediram - voltariam  para o Brasil pela manhã. Nas confusões do início, em que perdemos vôos por causa do mau tempo, remarcamos a volta para dois dias depois do planejado, mas eles não puderam fazer o mesmo. O que importou foi que, no fim, tinham conseguido  fazer os programas planejados. Celebramos com uma taça de vinho "Concha Y Toro", vinda direto do fabricante.