20110726

22o. dia - 18.09.09 - San Pedro/Santiago

A viagem de San Pedro de Atacama a Santiago durou cerca de 24 horas. Saímos pela manhã e na manhã seguinte estávamos na capital do Chile. Encontramos dona Lalá na rodoviária, toda arrumada e com a malinha pronta para visitar um familiar numa cidade vizinha. Ainda deu tempo de conseguir um papelzinho e uma caneta para deixar seu contato e pedir que ligássemos, seria bom nos falarmos mais uma vez. Pegamos o mesmo ônibus, mas dona Lalá ficou na parada seguinte enquanto nós continuamos viagem. Depois de passar por algumas cidades próximas, entramos numa longa estrada pelo deserto. Dessa vez, a estrada era de asfalto, mas a paisagem continuava nas belas montanhas e horizontes do deserto. De tempos em tempos (em alguns trechos em intervalos muito curtos) avistávamos placas, cruzes de madeira e flores, para lembrar de alguém que deixou esse mundo. Fiquei impressionada com tantas homenagens, que também revelavam o grande número de acidentes que havia por ali. 
Fizemos uma parada, já anoitecendo, e foi difícil encontrar um lugar para matar a fome. Tivemos que sair da rodoviária e procurar algum bar pelas ruas. A salvação foi uma barraquinha de cachorro quente, com o famoso "completo". Para nós, seria o extra da batata palha, azeitona, milho, ervilha, até um ovinho de codorna, mas, para eles, era uma pasta de acabacate com limão, em uma quantidade suficiente para tampar o pão. Achei melhor deixar as experimentações gustativas para um outro momento, pois uma noite dentro do ônibus estava nos esperando. De preferência, sem enjôos dessa vez.

21o. dia - 17.09.09 - San Pedro de Atacama

Passamos o dia descansando, aproveitando o hostel (Inti Para, 6000 pesos por dia - recomendamos!) convivendo com a cidade. A filha da senhora que cuidava do hostel, Catarina, não foi de muitas conversas no início, mas nos deixou participar das brincadeiras que inventava enquanto sua mãe se ocupava do trabalho. Aliás, quanto trabalho - limpar os quartos, banheiros, fazer almoço pra Catarina, arrumá-la pra escola, cuidar da recepção, atender os recados, receber os pagamentos. Nos contou que não era dali, que o marido morava em outra cidade, mas precisava trabalhar. Acabava sobrando pouco tempo pra brincar com a filha, que se acostumara a brincar sozinha. Mas depois que nos deu abertura, também foi difícil largar. Foram histórias e mais histórias que a boneca e sua família viveram naquela manhã. Tivemos que desenferrujar a imaginação e, o pior, caçar palavras em espanhol para nos fazermos entender. Ela era uma graça!


Aproveitamos para atualizar a grana no bolso. Depois descobri que fazer vários saques de pequenas quantidades, apesar de ser mais seguro, é muito desvantajoso, pois a cada operação é cobrada uma taxa. Também é preciso verificar minuciosamente a nota de dólar que trocarmos nas casas de câmbios, porque um defeito mínimo, como um pequeniníssimo corte, virava um problemão na hora de passá-la adiante. 
Para nossa sorte, estávamos em uma data comemorativa na cidade. Na verdade, no país: eram as chamadas Festas Pátrias, que celebravam a independência do Chile. E isso era um ótimo motivo para comer, beber e dançar. Participamos, então, de um grande evento em San Pedro, com direito a barraquinhas de churrasco, doces, bujigangas e apresentação de grupos de música. Carol e Edu resolveram dormir mais cedo, Cati e Rafa foram para um outro passeio (uma observação do céu - disseram que vale muito a pena conferir) e eu e Filipe resolvemos bailar. O mais curioso é que, antes, foi preciso entender a dinâmica do processo: os casais dançavam um de frente para o outro, mas respeitando uma espécie de fila (como acontece na formação do túnel, na nossa festa junina). E se era assim, era isso então - as regras é de que inventa a dança. Nos encaminhamos para a fila, para dançar algo que se assemeralharia a uma lambada, se pudéssemos fazer uma comparação. Mas havia outra dança, a mais típica dessas festividades, chamada "La Cueca", que é mais um espécie de cortejo. Fomos à outra tenda para assistir e descobrimos, ali, no cantinho, quietinha, a dona Lalá, uma senhorinha que preparou uma de nossas refeições. Fomos lhes falar, claro, elogiar a batata frita, e não é que dona Lalá gostou da nossa companhia? Ficamos juntos até o fim da festa, com direito a levar a dama na porta de casa. Mas, antes, claro, tomamos uma cervejinha e ganhamos uma aula sobre as danças de lá.


 

20o. dia - 16.09.09 - San Pedro de Atacama/Valle de la Luna

Mais um dia de passeio pelo Atacama, dessa vez para conhecer o Valle de la Luna. O choque entre placas tectônicas, há milhões de anos atrás, aliado a processos erosivos, desenharam as formas que assistíamos ali: imensos paredões e cadeias de montanhas. Chegávamos com cuidado à beira para ter a dimensão dos abismos que se formaram - algo de uma indescritível grandiosidade. O nome do vale era justamente porque essas regiões lembravam o solo lunar. Descemos e caminhamos pelas entranhas do vale, inclusive por uma caverna. Os guia orientava nossos passos, garantindo a saída pelo outro lado. Confesso que fui espetada por uma pontinha  de receio quando as passagens começaram a ficar menores e também mais escuras, mas logo estávamos de volta, respirando ares livres. 


A promessa era de que assistiríamos ao pôr-do-sol mais bonito de nossas vidas. E isso também foi verdade. Subimos uma enorme duna pela parte lateral, preservando todo o resto (que mais parecia um lençol esticado, de tão liso). Fomos alertados que era proibido fazer o que todos ali gostariam:  sair marcando os pés pela areia numa corrida louca. Isso poderia render aos atrevidos uma multa. Claro que a pena não foi suficiente para barrar todo mundo: bem lá no meio, dava pra ver os furinhos de alguma perna subversiva. Pelo menos, alguém matou a vontade. Caminhamos pelas montanhas até chegar à extremidade. O entardecer parecia lançar um véu branco sobre o solo e no horizonte o céu ia mudando de cor. Foi uma das coisas mais bonitas que já presenciei.



Conhecemos duas chilenas muito simpáticas que me salvaram do frio com a gentileza de emprestar um casaco. Elas faziam parte do nosso grupo no jipe e assim foi possível trocar mais palavras. Eram mãe e filha, que compartilhavam a experiência de conhecer novos lugares. Achei bonito que a mãe tivesse a preocupação de incluir as viagens no convívio (e certamente na educação) da filha. Fiquei envergonhava de saber pouquíssimo sobre cultura musical de seu país, enquanto ela me enumerava os cantores brasileiros que ouvia. Percebi que conhecemos muito pouco dos nossos próprios vizinhos.
À noite, fomos à tradicional (pois já devia ser a terceira vez que íamos lá, em três dias na cidade) pizarria da qual infelizmente esqueci o nome, mas que fez a alegria dos estômagos famintos. Gerente simpático, preço camarada e pizza boa demais!

19o. dia - 15.09.09 - San Pedro de Atacama

Contratamos um pacote de passeios pelo Atacama (4 passeios por 40.000 pesos), dessa vez partindo do Chile. O café da manhã de hoje seria tomado em um lugar muito diferente: em meio às diversas cortinas de vapor produzidas pelos geiseres. Era um imenso campo de onde a fumaça surgia de pequenas aberturas no solo. De longe, era possível admirar o que mais se destacava, lançando a água a metros e metros de altura. O calor dessas águas serviam para esquentar a outra, que serviria para o chá. Nosso guia contou o segredo: mergulhava o recipiente num desses vãos ferfentes. Dava até para cozinhar ovo, segundo ele. Tomamos banho em outra dessas piscinas naturais, mas nada que se comparasse à hidromassagem do passeio anterior.


Continuamos a nos surpreender com as belezas do deserto e as histórias das pessoas. No caminho para continuar os passeios da tarde, o carro parou na frente de um camping para pegar mais dois passageiros - brasileiros. Era um casal de namorados que faziam faculdade de biologia e resolveram tirar umas férias, pegar um empréstimo e fazer o dinheiro durar até o último níquel-peso-centavo ou o que valesse. Estavam acampados, tomando banho gelado (não acreditei) - e tudo isso com muito bom humor - para fazer a viagem esticar mais alguns dias. Nos mostraram as fotos de uma praia, onde ficaram acampados no Caribe, ocupada por Leões Marinhos. E eles lá, no meio, as únicas pessoas. Disseram que ficaram com medo no início, mas depois se acostumaram com os animais e eles, com o casal. Essa experiência realmente seria difícil eles terem na faculdade. 
Paramos para conhecer (e, é claro, testar) a famosa lagoa salina que não deixa ninguém afundar. Mais uma vez de roupas de banho, mais um vez com muito sofrimento - estava frio, frio. As águas salgadas produziam esse interessante efeito: mergulhávamos, mas éramos novamente devolvidos à superfície. A pele ficou coberta por uma camada branca de sal e, se não lavássemos logo com água doce, a sensação era de um ressecamento extremo que fazia doer. Os bravos arriscaram um mergulho no outro ponto de parada: los ojos del desierto, dois poços naturais, um ao lado do outro, de águas bem geladas. O clima de nuvens e o entardecer não ajudaram muito, mas depois que nossa nova amiga tomou coragem e pulou, os meninos sentiram-se na obrigação de honrar o gênero. Eu fiquei lá em cima, só dando força para os que cogitassem o feito. Terminamos o passeio com um belo café da tarde, com delícias numa mesinha e o céu em degradê.

18o. dia - 14.09.09 - San Pedro de Atacama/Valle de la Muerte

A programação de hoje era um passeio de bike pelo Valle de la Muerte, um verdadeiro vale de montanhas alaranjadas. Tinha esse nome porque o solo não deixava que nenhuma vegetação crescesse e assim reinava imperioso. É difícil pensar qual lugar que visitamos nessa viagem foi mais interessante, mas este certamente esse estaria entre os primeiros. Depois de seguir as indicações de um mapa que ganhamos quando alugamos as bicicletas (na agência Coyote, por 3500 pesos), saímos do asfalto liso e entramos no solo arenoso. E aí nem foram necessárias mais consultas: as paredes de terra de um lado e de outro já nos cerceavam o caminho.


Tá certo - nos perdemos uma vez, tivemos que voltar umas pedaladas e pegar a outra direção, mas o que valia mesmo era o passeio. Chegamos até as dunas, deixamos as bikes num canto  e subimos, para em seguida descer de uma só vez deslizando sobre uma prancha (o aluguel do sandboard custou 4000 pesos - alugamos um para cada dupla). Pelo menos a idéia era essa, mas os primeiros minutos foram apenas para entender como o esquema funcionava. Apesar de parecer fácil - prender os pés e partir- o sandboard agarrava, e nós ficávamos, como amadores que éramos, pulando e nos contorcendo pra fazer a coisa andar. Umas americanas, que estavam a um tempo ali e já tinham pulado essa etapa, deram umas dicas, e junto com nossas tentativas e erros entendemos que era preciso que o corpo produzisse a inclinação certa. O problema é que depois estávamos cansados demais pra continuar subindo e descendo aquele monte de areia, e o bom mesmo foi ficar lá em cima, descansando e admirando a paisagem. Rafa e Edu ousaram descer a duna maior, que era realmente muito maior, mas nós outros ficamos um tanto intimidados e decidimos observar em terra. Acho que até eles pensaram duas vezes quando chegaram lá em cima, mas aos tombos e cautelas os corajosos chegaram vivos ao fim. 


A noite foi de agasalhos, cachecóis e um vinho para esquentar, aproveitando o sossego da rede do hostel antes de uma voltinha pela cidade.


17o. dia - 13.09.09 - Deserto do Atacama/San Pedro

Era isso: não tinha dado a devida importância aos acessórios que protegeriam das condições inóspitas dessa viagem e ninguém sai imune de subestimar a força da Mãe Natureza. Na verdade, talvez tenha me preocupado com os acessórios errados: gastei uns bons dólares em La Paz, comprando uns óculos escuros que, segundo relatos, seria imprescindível para a claridade do Salar, e pouco o usei. Mas as luvas, que deveriam estar comigo como uma segunda pele, não sabia onde estavam. Entramos no jipe azul para começar o passeio do dia, às 05:30, e de tanto frio não sentia minhas mãos. Ou as sentia dormente, ou as sentia doendo. Muito. Estava muito frio. Perguntamos a nosso guia qual era a temperatura e ele respondeu que estávamos a consideráveis graus abaixo de zero. Foi o momento mais gelado de toda a viagem. E, por surpreende que possa parecer, visitaríamos muito em breve um lugar de águas ferventes. Os geiseres, que formavam um grande véu de vapor, também empesteavam o ar com um forte cheiro de enxofre. 


Chegamos a um novo ponto de parada: dessa vez, era possível entrar nas águas, quentes de sair fumacinha. Já avisados, fomos com roupas de banho por baixo dos tantos casacos e calças e, para terminar o sofrimento de uma só vez, nos despimos rápido e mais rápido ainda entramos no pequeno lago. Os dois gringos que estavam sentados na beirinha, apenas com os pés na água, certamente admiraram a ousadia do nosso grupo - mas quem tá no deserto, é pra se molhar. Uma espécie de banheira de hidromassagem natural - de nossa parte, não havia problema em ficar bastante tempo ali. E de fato ficamos mais que o combinado, mas era preciso seguir. Outro sofrimento pra sair e colocar a roupa, e dessa vez devemos ter sido mais rápidos ainda. O enjôo continuava sendo uma visita incoveniente, mas depois de um remédio (talvez o único que tomei de todos que levei) acabei me sentindo melhor.
Era hora de nos despedirmos de nosso guia para continuar o percuros em outro transporte, no qual atravessaríamos a fronteira Bolívia-Chile. Era curioso encontrar as mesmas pessoas em lugares distintos - viajantes que faziam o mesmo trajeto. Um deles, avistado de dentro do ônibus, foi uma grande surpresa: era o Argentino de Córdoba, andando com sua mochila nas costas para cruzar a fronteira a pé!



E então chegamos a mais um destino - San Pedro de Atacama, uma cidadezinha muito charmosa, com ares de interior e ilhada pelo deserto. Achamos um hostel, terminamos o almoço e quem encontramos, chegando na cidade (e nem posso mais dizer que foi surpresa)? O Argentino, que estava a procura de um amigo que fez pela internet e que o abrigaria aquela noite. Encontrado o amigo, seguiu seus caminhos, que então não mais se cruzaram com os nossos. Imagino que ele ainda esteja andando por aí.
Aproveitamos a noite para provar a cerveja local, conversar e dar uma volta pela cidade. Um grupo de sopros, corda e percussão, depois te provar algumas muitas cervejas, tocou um som muito parecido com os das nossas festas juninas. E isso rendeu uma mini-pseudo-quadrilha, mas só a gente participou. Ops, essas vergonhas é melhor deixar apenas pra quem viu.


16o. dia - 12.09.09 - Deserto do Atacama

Passamos pelas mais diversas paisagens do deserto. Na maior parte do tempo dentro do jipe, tivemos alguns momentos de parada para caminhar, tirar fotos, olhar tudo mais de perto. Conhecemos lagos de cor vermelha, outros azuis e verdes - todos de uma beleza indescritível. E neles, flamingos e outros animais que nunca havíamos visto antes. A estrada era, por muito tempo, feita de terra por todos os lados; às vezes, acompanhada de uma vegetação específica do clima. Rodar pelo deserto é algo simplesmente deslumbrante.


Paramos à beira de uma dessas lagoas para almoçar - dessa vez, já estava tudo pronto e só foi preciso servir. Provamos carne de llama. Ao fim do dia, paramos num novo hostel, um pouco maior que o anterior, mas também feito de sal. Filipe arriscou um passeio pelos arredores. Eu dei uma volta, resisti o quanto pude ao frio e vento, mas não por muito tempo. Ao menos foi possível experimentar um tanto da imensidão daquele lugar e ouvir uma espécie de som do silêncio. Não conseguíamos nos escutar, era apenas o barulho forte do vento, que se impunha sobre as vozes ou qualquer outro som que tentasse se arriscar. Só o vento, o céu sem nuvens entardecendo, a linha do horizonte continuando os caminhos, uma comunidade que se podia avistar ao longe, e a gente ali, pequeninhos. 


Conhecemos dois amigos portugueses que se juntaram ao grupo para conversas. Mas um a um fomos nos recolhendo para dormir e desaparecer dentro do saco de dormir e embaixo dos cobertores. Já quentinhos, alguém lembrou que era preciso apagar a luz, mas quem ousaria levantar? Como Cati sabiamente observou, foi lá que inventaram a expressão "Jesus, apaga a luz!", rsrsrs.

15o. dia - 11.09.09 - Uyuni

A viagem para Uyuni foi bem cansativa. Mas o cansaço também foi um ótimo aliado para conseguirmos dormir. A maior parte do percurso foi sobre um chão de terra e cheio pedras. Passar quase oito horas (das 12 que a viagem dura) saculejando dentro do ônibus foi bastante incômodo, e nada melhor que o sono pra encurtar as horas. Mas o pior foi acordar com um enjôo chato, desses não recomendáveis para se ter no meio do deserto. Não sei se foi o que jantamos no ônibus ou os chips comi em La Paz, mas meu estômago estava revirado.
A agência onde iríamos fechar o pacote de três dias no deserto (que custou 70 dólares) ainda não estava aberta. Aproveitamos para tomar o café e conhecer a cidadezinha, que também estava acordando. Crianças indo para escola, comerciantes começando a abrir as portas. Era estranho pensar que aquelas pessoas viviam em condições naturais tão inóspitas. Mas ainda ali desfrutavam de alguns recursos - outros povoados, que conheceríamos mais tarde, nos surpreenderiam mais.

Acertamos o passeio e, enquanto esperávamos num banco da pracinha, ouvimos o Filipe dizer: “ih, aí o cara!”. Era o Argentino de Córdoba, do qual havíamos ouvido tantas histórias. Ele reuniu uns três meses de férias em alguns anos de trabalho e resolveu fazer uma grande viagem. O destino era outro, mas quando o piloto do avião anunciou a parada em Lima, resolver ficar por ali mesmo. Se encantou pelo lugar, continuou de cidade em cidade e agora estava ali. Teoricamente o dinheiro já tinha acabado, mas pediu à mãe para depositar mais alguns dólares pra voltar pra casa, que acabaram sendo usados em mais um dia passeio. Para chegar em Uyuni, fez baldeação e economizaou metade do que gastamos. Essa gente é muito solta no mundo... Na próxima encarnação, venho nesse formato aí, pra viagem!
A primeira parada do Jipe azul, nosso meio de transporte, foi o cemitério dos trens. Havia muito lixo, embalagens e sacolas plásticas presas nos pequenos arbustos da paisagem árida, provavelmente trazidas pelo vento. Enormes vagões, que traziam a coloração laranja das ferrugens, compunham um incrível cenário. Nosso guia não deu muitas explicações sobre aquelas carcaças esquecidas (menos pela ação do tempo), mas em uma pesquisa para a escrita desse diário descobri que faziam parte da exploração de minério no local, que entrou em colapso na década de 40 e hoje servia como ponto turístico. Como disse, compondo um incrível cenário.

Às altas velocidades pelo caminho de areia clara e sem estradas para limitá-lo, chegamos numa pequena comunidade que vendia artesanato aos turistas, onde iríamos almoçar e fazer a parada para o banheiro. Era o próprio guia nosso cozinheiro. Enquanto ele preparava a carne, o arroz e as batatas, fomos conhecer o vilarejo. Comprei um dos itens de maior importância durante toda a viagem: uma espécie de boné de lã - que, ao mesmo tempo que aquecia, protegia do sol. Conversamos com o comerciante sobre como era morar naquele lugar para nós tão improvável. Nos contou que tinham muita dificuldade para conseguir água, que ele já havia inclusive tentado viver em outras cidades, mas, sem conseguir trabalho, acabou voltanto. A vantagem é que ali era mais sossegado, ele gostava.
O banheiro, pelo custo de 1 sole, era mais uma novidade sujeita a comentários: um fosso com o lugar para os dois pesinhos e a exigência de sustentar um equilíbrio. Bom desafio!

Seguimos para o famoso Deserto de Sal, ou Salar de Uyuni, uma impressionante planície branca - coberta, de fato, por sal - a perdermos de vista no fim do horizonte. Aquelas fotos clássicas, de um segurando o outro pela ponta dos dedos, são inevitáveis! No verão, a neve que derrete dos Andes alcança essa parte e, quando a água seca, forma figuras hexagonais que se conectam, como numa imensa colméia. Tivemos uma dimensão ainda maior da amplitude desse lugar ao subirmos numa pequena ilha que abrigava imensos cactos e, curiosamente, rochas que mais lembravam corais marinhos. Aí podemos até fazer uma piada de quem duvida de que um dia o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão. Ou já virou e desvirou, e a gente é que nem estava lá pra ver.

O passeio acabou num pequeno hotel, no meio do deserto (e se deserto não tem meio, deve ter sido ao menos perto de lá). Tudo lá era feito de sal - desde as paredes às mesas, camas e cadeiras. Tecidos espalhados por toda a parte davam cor e enfeitavam o hotel. Aproveitei que o dia ainda não tinha fechado as cortinas e corri pra tomar banho. O frio, muito frio, só aumentava. À noite,ganhamos uma garrafa de vinho, mas eu tive que ficar no chá de boldo e cream cracker para cuidar do mal-estar indesejado. Jogo de cartas para socializar e uma boa noite de sono para partir logo cedo no dia seguinte.

13o. e 14o. dia - 09 e 10.09.09 - La Paz

12o. dia - 08.09.09 - La Paz/Downhill

Mais um dia de acordar cedo e, mais uma vez, por um bom motivo. Íamos para o Downhill no `Camino del la Muerte`. Se o nome não era um dos mais atrativos, idéia de descer de bike 3.600m (em 65 km de distância) dispensava perguntas sobre o assunto. Melhor nem saber. Com o café da manhã incluído no pacote, que custou 58 dólares, esperamos a van no hostel e partimos para encontrar o restante do grupo. E adivinha de onde ele era? Brasil, Minas Gerais. Os japoneses que se cuidem, nós é que iremos dominar o mundo... Começamos a vestir os apetrechos para o Downhill - luvas, roupa corta-vento, capacete, óculos - mas Rafa e Edu acabaram ficando desfalcados. Os tamanhos que pedimos na hora de fechar o contrato não haviam sido respeitados, mas como eu, Carol e Cati éramos três formigas que cabiam em qualquer número, foram os meninos que pagaram o pato. Por causa desse desagrado (e de saber que os mineiros foram mais malandros que os cariocas e haviam conseguido um desconto), os muchachos não quiseram pagar pato nenhum e ainda pediram o dinheiro de volta. Discusões, atrasos e 14 dólares devolvidos depois, partimos para o passeio.

A descida começava em La Cumbre, a 4.700m, e finalizava em Coroico, a 1.200m. Fazia um bom tempo que eu não andava de bicicleta e, por dois segundos, tive medo de ter esquecido como fazia. Mas, como os sábios jargões populares nos dizem, taí uma coisa que a gente nunca esquece. Uma primeira voltinha meio capenga para as adaptações e começamos a pedalada. A paisagem era incrivelmente bonita. Montanhas de cor laranja-acizentada ao fundo, e nós ganhando velocidade no asfalto liso. O vento passando com rapidez nos dava uma grande sensação de liberdade. Dividíamos a rodovia com caminhões e carros de passeio que, graças ao Deus Protetor dos Ciclistas na Pista, andavam com uma certa prudência.



As montanhas foram mudando para uma vegetação verde e o caminho, pedras e chão de terra batida. Os meninos se aventuravam com rapidez; eu tentava encontrar um ritmo; Cati e Rafa ficavam próximos e Carol usava os freios com mais frequência. Mas ser a última não lhe incomodava. Só de estar ali havia sido um enorme passo para desmistificar traumas do passado, de um tombo de bicicleta de deixar medo em qualquer um. Caroleta, com ajuda do fiel guia que nos acompanhou, venceu o medo em grande estilo, numa das estradas mais perigosas do mundo.



De tempos em tempos, parávamos para descansar e esperar para o grupo se reunir. Esses pontos geralmente guardavam histórias tristíssimas, de acidentes e muitas mortes. Nosso guia revelou uma dessas histórias passadas em sua própria família. Era mesmo assustador imaginar que aquele caminho tão estreito, de curvas acentuadas e beirado por abismos, já havia sido a estrada principal de circulação. Quando algum veículo se aproximava, nossos guias se comunicavam por rádio e nos deixavam mais atentos. Os mineiros também foram ótimas companhias para descontrair o clima tenso que por vezes o passeio ganhava. Dei muitas risadas! O grupo de amigos de longa data que se reunia para mais uma viagem me fazia sentir saudades da minha `galerinha` da Uff e seu extenso currículo de mochilinhas. Pensei nos amigos e familiares que gostaria que estivesse ali. Ah, se eu pudesse, carregava todo mundo comigo!



Paramos no meio do caminho para um lanche: sanduíche à moda self service, a ser preparado com tomate, alface, presunto, queijo, com direito à edição personalizada. Não sobrou uma fatia de pão pra contar história.

Foram algumas horas de descida. Os dedos quase não tinham mais forças para apertar o freio, mas acredito que ninguém estivesse torcendo para que o passeio acabasse. No entanto, confesso que depois de avistar o barzinho que anunciava o fim das pedaladas, me deu até uma alegria - o cansaço era grande. Uma cerveja para comemorar e um almoço com direito à piscina e sauna pra fechar com chave de ouro. Acabamos ficando mais que o previsto e chegamos tarde à La Paz. A cidade, vista de longe, era um bonito vale de luzes. E a noite estava apenas começando. Mas não podemos deixar de mencionar a trilha sonora da viagem, que foi, digamos, muito peculiar. Teve até "quero beber do mel de sua boca...", lembram dessa?


Filipe, que nos esperava no hostel com 5 fios de cabelo branco a mais, contou que já estava pensando em como dar a notícia de que todo mundo tinha ficado numa das curvas da estrada. Realmente demoramos muito a chegar. E depois de contarmos o nosso dia e ouvirmos o dele, chegamos à conclusão de que nós é que devíamos ter nos preocupado com Filipe. O equipamento completo da empresa que ele escolheu foi uma bicicleta e um “vai com Deus”. Morremos de rir com as histórias do Liso e ouvimos sobre um personagem lendário que conheceríamos mais tarde: o Argentino.

11o. dia - 07.09.09 - La Paz/Chacaltaya

A altitude produziu estranhos efeitos sobre tudo. Parecia que não eram apenas nós a sofrermos com esse mal: ao abrir meu desodorante, a bolinha saltou para longe, foi praticamente uma explosão! Eu já me sentia aclimatada, mas um leve cansaço sempre aparecia ao subir os dois lances de escada até o quarto. Chegar aos 5.540m do topo da montanha Chacaltaya seria então um verdadeiro desafio, que iríamos encarar hoje.




Dos 25 passageiros do ônibus do passeio (que custou 50 bolivianos), 22 eram brasileiros. Os ouvidos se sentiram em casa com o sotaque arranhado do puro carioquês das meninas do banco de trás. E também foi mais fácil compartilhar o desespero de cada curva do caminho. A estrada parecia ter sido feita sob medida para o ônibus, e conforme subíamos, um abismo do lado direito crescia em profundidade. A janela do meu lado me expunha a uma visão desesperadora: não encontrava a estrada, apenas um grande vão. Senti um medo como poucas vezes senti em minha vida. Na hora que a roda derrapou na neve derretida, foi por muito pouco que não pedi para descer. Eu subiria à pé mesmo, sem problemas - tinha amor à vida. Filipe quis me tranquilizar dizendo que o motorista devia fazer aquele caminho duas vezes a cada dia, devia ter muita experiência. E foi entre as minhas expressões de angústia e palavras de incentivo que finalmente chegamos ao ponto final. Dali pra frente, era mesmo no calcanhar. Fique tão feliz em sair do ônibus que encarei o resto da subida com disposição. E valeu cada passo.



Talvez eu tenha considerado aquela uma das paisagens mais bonitas durante a viagem por ter sido tão diferente de tudo que já conhecia: montanhas cobertas de neve com lagos de cores muito vivas em seus vales. Nosso guia contou que ali já havia sido a maior estação de esquí da América Latina. Agora, pouco restara da neve. Efeitos do aquecimento global. Tentamos registrar tudo em dezenas de fotos, mas a imagem mais marcante ficará mesmo por conta da memória. Eu e Carol escolhemos uma frase que ouvimos de uma pessoa muito importante para soprar aos ventos frios e fortes de lá: “o que se leva dessa vida é a vida que se leva”. E foi assim que nos despedimos, falando-a bem alto para o voz ocupar um tanto daquela imensidão.


Entre as conversas sem medo de errar as palavras, conhecemos uma menina chamada Rita, brasileira, que estava trabalhando numa ONG no Peru e aproveitara para visitar a Bolívia. Achei muito engraçado quando ela disse como se sentiu bem ao dizer “isso é muito maneiro” e alguém entender a grandiosidade dessa frase.

À tarde fomos procurar uma empresa da qual o Rafa já tinha referências para ver as condições dos equipamentos e fechar o contrato do Downhill. Filipe pesquisou outras agências que ofereciam um valor mais acessível e eu fiquei em dúvida sobre qual escolher. Mas diante das histórias que já tinha ouvido sobre a estrada da descida, optei pela mais cara, mas mais segura também. Aproveitamos para andar e conhecer os arredores do hostel. Nas calçadas, pessoas vendendo todo tipo de coisas: biscoitos, doces, cachecóis, pilhas, cadernos. Grande parte das mulheres adultas ou mais idosas vestiam as roupas características de lá: saias longas, chales, sandalinhas de couro e uma espécie de cartola no alto da cabeça. Como bem observou Carol, não havia carrinhos de bebê . Eles eram carregados na costas, envoltos num pano. A trânsito era um completo caos: carros vindos de todos lados, ônibus parando em qualquer lugar para pegar passageiros (inclusive na curva). E para organizá-lo, pessoas vestidas de zebras (?). Só podia dar zebra mesmo naquela confusão.



Mas depois fiquei pensando se não eram iguais às ruas das nossas capitais. Também como elas, o abismo social entre os bairros era assustador. Depois de atravessar um túnel (que podia muito bem ser o Rebolças), as casas pobres se tranformavam em prédios luxuosos. Os diferentes lados de La Paz. Na noite passada havíamos conhecido essa outra parte da cidade, quando fomos a um barzinho muito aconchegante (alguém lembra o nome?), mas que ainda estava vazio (foi quando o garçom nos indicou a ´noite brasileira` no Hard Rock). Mas hoje precisaríamos ir para cama mais cedo.